Nota do blog: Publicamos tradução não oficial de uma declaração do Movimento Popular Peru (MPP), organismo gerado do Partido Comunista do Peru (PCP) para o trabalho no exterior, sobre o crescente protesto popular e explosividade das massas peruanas. Atualmente em processo de Reorganização Geral, o PCP dirige desde 17 de maio 1980 a pujante guerra popular no Peru, que socavou os alicerces do velho e podre velho Estado peruano de tal modo que as classes dominantes não são capazes de reestruturá-lo e reimpulsionar o capitalismo burocrático no país. Os comunistas do MPP apontam que a situação de farsa eleitoral em meio à crise nas “alturas”, que agrava as condições de vida das massas populares, “dá a brilhante oportunidade de marchar de vento em popa, mobilizando ampla e profundamente as massas contra a nova farsa eleitoral, pelo boicote ativo, pela luta pela defesa dos direitos, liberdades e benefícios conquistados com sangue e para elevar esta luta das massas a luta política, para sua nova incorporação por saltos à guerra popular, culminando com a tarefa da Reorganização Geral do Partido e seguir desenvolvendo a Revolução de Nova Democracia com guerra popular”.
Proletários de todos os países, uni-vos!
VIVA O CRESCENTE PROTESTO POPULAR E SEU DESENVOLVIMENTO NO PAÍS!
Por ocasião do discurso da fascista, genocida e vendepátria Dina Boluarte em 28 de julho de 2025 diante do Congresso – ou chiqueiro – de Bolivar para informar sobre sua gestão, dizemos:
A assassina Dina tem tentado apresentar cinicamente sua gestão presidencial como exitosa, mesmo tendo fracassado nas três tarefas reacionárias de seu governo, que, para o povo, tem significado mais genocídio, fome e pobreza, redobrada exploração e miséria, bem como sangrenta repressão e perseguição aos protestos das massas; e, para a nação oprimida pelo imperialismo, nação em formação, tem significado maior entrega ao imperialismo.
O regime fascista, genocida e vendepátria presidido por Dina Boluarte expressa a aguda crise do velho e putrefato Estado peruano, Estado latifundiário-burocrático a serviço do imperialismo, principalmente ianque. Estado que, com sua coluna vertebral – as forças armadas, policiais e forças auxiliares – sustenta e defende a velha sociedade em crise geral e derradeira, sociedade semicolonial e semifeudal, sobre a qual se desenvolve um capitalismo burocrático a serviço do imperialismo, principalmente ianque.
A crise nas “alturas” expressa que vivemos o desenvolvimento da situação revolucionária. Lenin a caracterizou magistralmente através de três observações:
“1) A impossibilidade das classes dominantes conservarem sua dominação sem produzir transformações; crise nas ‘alturas’, crise na política da classe dominante, que abre uma fenda pela qual irrompem o descontentamento e a indignação das classes oprimidas. Só quando os ‘de baixo’ não querem e os ‘de cima’ não podem continuar vivendo à moda antiga é que a revolução pode triunfar. 2) Um agravamento extraordinário da miséria e das calamidades das classes oprimidas. 3) Uma intensificação considerável, em razão das causas anteriores, da atividade das massas, que em tempos de ‘paz’ deixam-se espoliar tranquilamente, mas em tempos turbulentos são empurradas, tanto por todo o ambiente da crise como pelas próprias “alturas”, a uma ação histórica independente.” (V. I. Lenin, A bancarrota da Segunda Internacional)
O desenvolvimento da situação no país mostra que essa crise nas “alturas” abre uma fenda pela qual se infiltram o descontentamento e a indignação das classes oprimidas. O fato de que as massas estão começando a mobilizar-se fortemente não só face ao desemprego, o subemprego, os baixos salários, a superexploração e a miséria, mas também face à redobrada opressão que padecem, bem como ao colapso e à crescente decomposição da velha sociedade e do velho Estado que a sustenta.
Os dados econômicos mostram reiteradamente o caráter semicolonial e semifeudal da sociedade peruana, sobre a qual se desenvolve um capitalismo burocrático a serviço do imperialismo, principalmente ianque. Estes dados também mostram o fracasso econômico do governo atual. Vejamos alguns dados pontuais:
Em 2024, esperava-se uma expansão de 3,1% do Produto Interno Bruto (PIB). Essa recuperação foi sustentada, por parte dos setores primários, pela pesca, agricultura e suas indústrias associadas, assim como os preços dos minerais. A projeção estima que o PIB crescerá a uma taxa de 3% em 2025, levando em conta condições climáticas normais, a entrada em operação de alguns projetos de mineração e infraestrutura, tudo isso num ambiente que favoreça a contínua recuperação dos gastos privados.
O leve crescimento do emprego se explica pela informalidade, e não pela economia formal, com dados dramáticos como que 1,5 milhão de jovens entre 15 e 29 anos não estudam nem trabalham. Apesar do rebote em 2024, o panorama a médio prazo para a economia peruana segue exibindo potencial inferior ao de uma década atrás. As projeções do FMI para os próximos cinco anos preveem um crescimento do PIB do país de apenas 2,4%. (A fonte secundária de onde extraímos esses dados são os relatórios do Banco Central de Reserva (BCR): Relatório de inflação de junho de 2024; Panorama atual e projeções macroeconômicas 2024-2025. Gálvez Lume, Deysi & Tarazona Ramos, Luis. EduDatos 50: Os nem-nem: jovens que nem estudam nem trabalham no Peru atual. Lima: Ministério da Educação (Minedu)).
Sobre pobreza, insegurança alimentar e informalidade, as cifras oficiais são: em 2023, a renda real média diminuiu 1% em relação a 2022; em relação a 2019, a redução foi bastante significativa nas áreas urbanas, de 13%, e de 5,2% nas áreas rurais. As linhas de pobreza extrema e de pobreza total cresceram, respectivamente, em 33,9% e 26,7% em relação a 2019. A pobreza monetária aumentou 1,5% entre 2022 e 2023 e 8,8% em relação a 2019. Durante 2023, a pobreza monetária aumentou para 29%, enquanto a pobreza extrema alcançou 5,7%, marcando uma reversão na tendência decrescente observada no período 2009-2019. 51,7% da população enfrenta insegurança alimentar moderada ou severa, o que representa 17,6 milhões de pessoas. Não obstante, somos grandes exportadores de alimentos para o mercado imperialista mundial.
A resistência das massas diante da situação ligeiramente esboçada acima tem se expressado em grandes e pequenas ondas de protestos, em muitos casos recorrendo à resistência armada. As massas mostram-se cada dia mais ativas, tudo isso num contexto de período eleitoral, tendo em vista as eleições gerais para substituir as autoridades reacionárias em abril de 2026.
A Dina genocida pretende manter-se como presidente até julho de 2026, encabeçando um governo repudiado por tírios e troianos, que só se sustenta pelas forças das armas e pelo apoio parlamentar de uma exígua maioria de representantes dos diferentes grupelhos eleitorais reacionários, chamados de “partidos”, incluindo os oportunistas do “Peru Livre”, com Waldemar Cerrón, que “repete o prato” como vice-presidente, e algumas ratazanas da LOD [Linha Oportunista de Direita] do “Bloco Magisterial”, do “Bloco Socialista”, dos “Castilhistas” e outros.
Um fato curioso sobre o parlamento e que ilustra perfeitamente o que dizemos é que, desde 2021, mais de 50 congressistas mudaram de agrupamento político, alguns deles até mais de três vezes. 67 dos 130 parlamentares estão diante de inquéritos e investigações sob suspeita de crimes contra a administração pública, a fé pública, o patrimônio e outros, até mesmo estupro. Nesta situação, as dificuldades aumentarão para a reação até depois das eleições e a instalação do novo governo. Ainda que, como estão as coisas, nada garante que não haverá um golpe militar ou parlamentar. Deve-se ter em conta que, na repartição eleitoral há mais de 40 cartéis eleitorais (partidecos ou frentes) que podem apresentar candidatos para a presidência e as câmaras de senadores e deputados. No que tange sua governabilidade e legitimidade, não há prospecto de mudança para o velho Estado. Citamos da revista Desco os seguintes dados que expressam o colapso e a decomposição de todo o sistema político:
“O panorama político eleitoral a dois anos das eleições gerais não poderia ser mais desolador, e, acima de tudo, mais distante dos cidadãos.
“No entanto, esse tipo de ‘depressão’ política, que conduz à paralisia – também política – na sociedade e em alguns partidos e organizações, contrasta com o transbordante entusiasmo demonstrado por outros para o futuro processo eleitoral de 2026. Segundo dados oficiais do Júri Nacional de Eleições (JNE), temos 35 partidos políticos legalmente registrados até o mês de agosto e outros 24 partidos no processo de registro, com o que poderíamos chegar a ter 59 organizações políticas habilitadas para as próximas eleições gerais. Teoricamente, se se inscreverem essas 59 organizações e apresentarem todas listas ao Congresso, teríamos 7670 candidatos. Um recorde histórico.
“Esse tipo de febre eleitoral, por exemplo, é compartilhado por vários ex-parlamentares: ‘Após uma análise dos últimos cinco anos, El Comercio detectou que mais de 50 ex-parlamentares afiliaram-se a uma agremiação distinta da que representaram em seus respectivos mandatos, e estão aptos a se candidatar novamente’.” (Alberto Adrianzén M. Congresso, crise, democracia e informalidade. In: Peru hoje, o desmoronamento da democracia. Lima: Desco, 2024)
Os reacionários só podem ser cada vez mais pessimistas em relação à situação atual. Os mais esclarecidos entre eles lamentam “a profunda decomposição que estamos experienciando”, veem sua atual “democracia” como a “continuação do regime fujimorista”, na qual “os fundamentos neoliberais não deveriam ser questionados”. As aspas são da apresentação de Toche M., Eduardo (Org.). Peru hoje, o desmoronamento da democracia. Lima: Desco, 2024.
E o mais interessante é que, à sua maneira e apesar de sua linguagem e pensamento de podre raiz pós-moderna, Toche descreve a superestrutura política do país, que, para nós, expressa sua base semifeudal e semicolonial e, com isso, o fracasso da segunda tarefa reacionária do regime fascista, genocida e vendepátria de Fujimori, regente a partir de 1992, e, portanto, do atual regime de Dina Boluarte. Leiamos o que ele diz a respeito disso:
“Em conclusão, [no Peru hoje] é evidente que a falsificação de uma cultura de legalidade por parte do submundo criminoso – e daqueles que ocupam espaços entre este e o reino do lícito – alimenta a intrínseca relação entre a lei e a desordem que vivenciamos cada vez mais intensamente.
Depois de tudo, uma vez que o Estado começou a terceirizar seriamente seus serviços e a conceder franquias, e uma vez que as organizações extralegais começaram a imitar o Estado e o mercado concedendo proteção e administrando justiça, a ordem social torna-se um caleidoscópio: simultaneamente presente e não presente, simultaneamente hiperreal e uma superposição de imagens, simultaneamente visível, opaca e translúcida. Mais ainda, essa duplicação, essa presença simultânea da lei e da desordem, tem sua própria geografia, uma geografia de soberanias descontinuadas e sobrepostas”
Outro exemplo de como se manifesta a semifeudalidade na superestrutura política é encontrado no artigo citado de Alberto Adrianzén M. sobre o caso dos “mochasueldos”. Leiamos:
“(…) a existência dos chamados ‘mochasueldos’ [‘homens-salário’], isto é, legisladores que obrigam suas trabalhadoras e/ou trabalhadores a entregar parte do seu salário, convertendo essas pessoas num tipo de ‘arrendados’ que, se bem que não trabalham para o dono da terra ou fazendeiro, como era no passado, são obrigados a entregar parte de seu trabalho em dinheiro ao legislador. Esta forma de relação demonstra o caráter patrimonial da política do legislador, onde a curul representa o que era a terra para o gamonal.”
Como repercute a decomposição do sistema político reacionário e a perspectiva?
Diante dessa situação, as massas têm-se visto na necessidade de resistir frente ao duplo ataque reacionário: de um lado, das forças repressivas do próprio Estado e, do outro, dos bandos dos “senhores da guerra”, motivo pelo qual em muitos lugares tiveram de recorrer à resistência armada.
A resistência armada das massas dá a possibilidade ao PCP de elevar essa luta a luta política, à luta pelo Poder, passando da resistência armada (autodefesa) à luta guerrilheira para destruir as forças vivas do inimigo e as velhas relações de produção, sob a consigna de combater e resistir, ponto o centro em combater e organizá-las dentro do Exército Popular de Libertação para dar um novo salto da incorporação das massas à guerra popular. Assim diferenciamos entre resistência passiva, autodefesa armada e luta armada, e, mais ainda, com guerra popular.
Por isso, a situação atual é muito ruim para a reação e muito boa para a revolução, serve para avançar na tarefa da reorganização geral do Partido em e para um novo salto na incorporação das massas à guerra popular. Para sair do atual recuo para uma guerra popular ativa.
Em situações de conjuntura eleitoral, onde se agudiza o conluio e pugna reacionários, seguida da mudança de governo, sabendo do desajuste que isso traz para eles e sabendo que o novo governo será muito mais débil e ilegitimado que o atual, que será muito pior para as massas, dá a brilhante oportunidade de marchar de vento em popa, mobilizando ampla e profundamente as massas contra a nova farsa eleitoral, pelo boicote ativo, pela luta pela defesa dos direitos, liberdades e benefícios conquistados com sangue e para elevar esta luta das massas a luta política, para sua nova incorporação por saltos à guerra popular, culminando com a tarefa da Reorganização Geral do Partido e seguir desenvolvendo a Revolução de Nova Democracia com guerra popular.
VIVA O PRESIDENTE GONZALO E SEU TODO-PODEROSO PENSAMENTO GONZALO!
VIVA O PARTIDO COMUNISTA DO PERU!
VIVA A GUERRA POPULAR!
VIVA O CRESCENTE PROTESTO POPULAR E SEU DESENVOLVIMENTO NO PAÍS!
ABAIXO O REGIME FASCISTA, GENOCIDA E VENDEPÁTRIA!
VIVA AS HEROICAS LUTAS DE LIBERTAÇÃO NACIONAL DOS POVOS DE PALESTINA E UCRÂNIA!
MOVIMENTO POPULAR PERU
Julho de 2025
NOTA:
“Não há maior sinal de subordinação do Estado peruano que a que se refere à interdição aérea, dependente da decisão dos departamentos de Estado e de Defesa dos EUA. Em agosto de 2023, tivemos de assinar um convênio de interdição não letal com os EUA, absolutamente inoperativo – em termos de eficiência na interdição
– apesar de que temos legislação específica que autoriza a derrubada de naves suspeitas, uma vez esgotados os protocolos. É assim que fomos incapazes como país de fazer predominar nossa vontade em nosso próprio espaço aéreo.” (Não um, mas muitos Vraem, Ricardo Soberón G.)


a-se, em perspectiva histórica, a longa e árdua luta do campesinato peruano contra as estruturas de latifúndio que, desde o período colonial, mantiveram populações indígenas e rurais submetidas à exploração, à pobreza estrutural e à ausência de direitos básicos. Conforme registra Rosana Bond (2013), “as comunidades andinas carregavam sobre si séculos de expropriação e exclusão, o que abriu terreno fértil para movimentos que buscavam transformar radicalmente essa realidade.
Nesse cenário, surgiram organizações revolucionárias que interpretaram a luta camponesa como força motriz para um processo de ruptura. Entre elas, a liderança de O Camarada Presidente Gonzálo (Abimael Guzmán) teve papel central na formulação de uma linha política que via o campesinato como sujeito histórico prioritário. Rosana Bond, aponta que certas leituras marxista-maoístas encaravam o campo como “o coração das contradições, o lugar onde a opressão semifeudal e a dominação oligárquica se manifestavam de modo mais brutal.