Foice, martelo e mitra papal: A propósito da posição de ‘Proletari Comunisti-PCm’ em relação ao Papa (Nuova Egemonia, 2025)

Nota do blog: Publicamos tradução não oficial de um artigo de resposta de Nuova Egemonia – coletivo italiano marxista-leninista-maoista, principalmente maoista, aportes de validez universal do Presidente Gonzalo – à uma dita “conferência virtual” de “Proletari Comunisti-PCm”. Este que em seu site “Maoist Road”, além de suas próprias tolices, publica também outros lixos de além-mar.

Índice

Aprender a conhecer e criticar as posições oportunistas de Proletari Comunisti-PCm

Para um enquadro crítico da conferência de Proletari Comunisti-PCm sobre a morte do Papa

Texto integral da conferência em áudio do Proletari Comunisti-PCm


A propósito da posição do Proletari Comunisti-PCm em relação ao Papa

Foice, martelo e mitra papal

Aprender a conhecer e criticar as posições oportunistas de Proletari Comunisti-PCm

Intervimos mais uma vez, como coletivo de Nuova Egemonia, para revelar a verdadeira face política e ideológica de um grupo que costuma se apresentar, tanto na Itália quanto no exterior, como “marxista-leninista-maoista”, e que inclusive busca se postular como co-promotor da construção de uma nova internacional comunista. Uma internacional, na realidade, alternativa e oposta à crescente dinâmica de unificação dos grupos e partidos maoistas em curso a nível internacional.

O agrupamento em questão é o Proletari Comunisti-PCm Itália [denominado “Partido Comunista maoista”], que anteriormente se chamava “Rossoperaio”. Suas raízes históricas remontam à pertença ao “PC(M-L)I La Voce Operaia”, surgido a partir da retificação, em 1971-72, das posições do velho “UCI(ml)-Servire il Popolo”. É um grupo camaleônico. Apresenta, vez em vez, um rosto diverso: num dia é maoista, noutro se alinha ao “Potere al Popolo” (com um entrismo não muito encoberto) e à “Rete dei Comunisti”, noutro remete à velha “Autonomia Operaia”, e chega inclusive a afirmar em seu site que, nos anos 70, todos tinham um pouco de razão – desde os radicais de Pannella até as Brigadas Vermelhas.

Na circunstância atual, com relação à avaliação da figura e da atuação do Papa recém-falecido, esse grupo, com uma empatia artificial – e portanto falsa – pelas massas populares, achou por bem oferecer o populismo em primeiro plano. Com uma linguagem “antissistema” na forma, sustenta, no conteúdo, a união ao coro geral do imperialismo, da burguesia, das classes e forças fascistas, liberal-reacionárias, revisionistas e oportunistas do mundo inteiro. Um coro que se propõe a um objetivo muito claro: valorizar uma figura que exerceu, com grande maleabilidade e flexibilidade, um papel extremamente útil a serviço dessas forças. Diante da colossal crise hegemônica de uma falsa democracia burguesa, que se vê cada vez mais obrigada a se apresentar de uma forma abertamente fascista, o falecido Papa buscou “sustentar a barraca”, suavizar a crise hegemônica, evitar – na medida do possível, ou seja, no âmbito da decrépita combinação entre feudalismo e imperialismo representada pela instituição clerical – que os oprimidos na Itália e no mundo ficassem sem uma representação ideológica e política que não fosse a de uma oposição cada vez mais consciente, informada e determinada contra o imperialismo e o fascismo.

O Papa precisava, portanto, voltar-se aos humildes, aos últimos, aos explorados; necessitava, com a “devida sobriedade”, reclamar pela situação do povo palestino; precisava ser o pacifista da vez (como já havia feito – talvez de maneira ainda mais estrondosa – o Papa Wojtyla [João Paulo II] durante a Guerra do Golfo), aquele que se opõe de maneira cândida e ingênua à guerra e ao rearmamento. Era isso que se esperava dele, era isso que lhe havia imposto o grande polvo que o produziu e o selecionou, e foi exatamente isso o que ele fez.

As coisas mudam, e repetir várias vezes a mesma tática nem sempre é vantajoso. É possível, e talvez necessário, que o “novo” Papa entre em cena com um “novo” rosto – enquanto o jogo durar. Porque, depois, não restará outra possibilidade senão a de um Papa fascista, como nos anos 1930.

O problema, portanto, não é o Papa, que desempenhou seu papel com maestria. O problema são os chamados amigos do povo, os pseudo-representantes do proletariado – aqueles que, como o grupelho em questão, posam de vanguarda da revolução proletária italiana e (por que não?) também internacional. O problema são os politiqueiros, os oportunistas que sempre tratam de galgar o proletariado, a juventude, os movimentos, com o único objetivo de descarrilar o trem da oposição, das lutas, da reconstrução do Partido Comunista.

O principal e bem conhecido dirigente de Proletari Comunisti e parte do PCm-Itália achou por bem realizar uma pequena conferência de cerca de 30 minutos sobre a morte do Papa, cujo áudio está disponível no site: https://proletaricomunisti.blogspot.com/.

Anexamos ao final do presente artigo a transcrição fiel e integral dessa conferência. Não o fazemos apenas pela necessidade de oferecer ao leitor toda a documentação necessária para uma avaliação crítica das diversas posições em debate, nem com o simples objetivo de mostrar a verdadeira face política e ideológica de um grupo que desprestigia o maoismo. Publicamos a transcrição porque seu conteúdo é, de certo modo, exemplar – e, por essa exemplaridade, é estudado e comentado por jovens companheiros, estudantes e proletários que, diante da revolução que se vislumbra no horizonte, devem aprender a conhecer e reconhecer o adversário para evitar recorrer aos caminhos falidos dos anos 1970, quando as massas e os melhores militantes revolucionários e combatentes foram presa de castas intelectuais subjetivistas, cujo espírito “revolucionário” teve a duração de um meteoro.

Intelectuais, presumidos revolucionários como Raniero Panzieri, Mario Tronti e sobretudo ele, o teórico e incontestável chefe da “Autonomia Operaia”, Antonio Negri, acompanhados por dezenas, ou até centenas, de professores universitários e publicistas “ultrarrevolucionários” que, senão todos negristas, eram certamente, de um ou outro modo, “operaístas” (termo que, obviamente, não significa “defensores da causa do proletariado”).

Na conferência de Proletari Comunisti-PCm sobre o Papa, “dois se integram em um”, como destacava Mao a respeito da filosofia sempre seguida pelos revisionistas. A linha revolucionária se funde à oportunista com o intuito de enredar os revolucionários e as massas, semear o caos ideológico, confundir ideias e fazer prevalecer – cedo ou tarde, direta ou indiretamente – o oportunismo.

Não é preciso repetir o passado: é necessário que os elementos mais avançados e conscientes das massas se empenhem em aprender a ciência da política da revolução, a filosofia do materialismo dialético, a teoria militar do proletariado e, de modo geral, em estudar diretamente e aplicar a ideologia revolucionária do proletariado – de Marx a Engels, de Lenin a Stalin, de Mao a Gonzalo. No que diz respeito à Itália, trata-se também de estudar Gramsci, de reestabelecer, com base no maoismo, a ligação com o fio condutor de seu pensamento. Trata-se de decifrar seus “Cadernos do Cárcere”, escritos numa linguagem aparentemente críptica e cultural para escapar da censura fascista, e transformá-los em potente arma para arrasar todas as camarilhas oportunistas. Essa é uma tarefa na ordem do dia para os jovens companheiros, os jovens proletários que hoje voltam a erguer a bandeira da revolução.

Para um enquadro crítico da conferência de Proletari Comunisti-PCm sobre a morte do Papa

Os dirigentes desse grupo parecem querer apresentar-se como a voz de um povo sofrido que a duras penas elabora o luto pela perda. “A morte do Papa”, dizem eles, “surgiu como trágica, repentina, dilacerante… para grande parte de seu povo”. Falam de “seu povo”, mas basta ler a transcrição do discurso para perceber que, para esses personagens, o “povo do Papa” não é outra coisa que não o “povo em geral”. Mas o melhor vem logo depois: a varinha mágica do politiqueiro transforma a realidade no seu oposto. Os poderosos da Terra, os fascistas e os imperialistas de todos os matizes compareceram ao funeral do Papa não por reconhecerem a utilidade de sua obra, não porque desejam, ao menos por ora, garantir que o trabalho por ele realizado em seu benefício não se dissipe, mas porque, pelo contrário, quiseram “pacificar” a mensagem do Papa.

Eis então que, num passe de mágica, o Papa é transformado de grande reacionário e chefe da Igreja Católica em grande revolucionário anti-imperialista em rota de colisão com a Igreja e com os governos imperialistas e reacionários de meio mundo.

O que diz Proletari Comunisti? O funeral é, em essência, a resposta, a restauração. Todos os poderosos da Terra… estão ali porque enterram, com o funeral, a posição incômoda do Papa… Em todo âmbito, as declarações do Papa – as formas, os conteúdos, o momento em que foram ditas – representaram uma crítica, um ataque à ação política em todos os terrenos do imperialismo e de seus governos…” E continuam: “O funeral é o primeiro passo explícito, para usar uma linguagem do nosso campo. Parece de fato o funeral dos fariseus, para usar uma expressão do campo religioso. O funeral dos fariseus, dos sepulcros caiados, dos anti-Papas… Qual é, portanto, o ponto que revelamos aqui? Que o Papa representou uma oposição ao imperialismo, aos seus governos, à sua marcha rumo à guerra, à reação, ao racismo, ao empobrecimento, à miséria das massas populares.”

O início da conferência de Proletari Comunisti está em sintonia com sua conclusão sacerdotal: “Sobre o cadáver ainda quente de Francisco, diante desta repugnante feira de hipocrisia representada por seu funeral com essas presenças ilustres – de Trump, primeiramente, a Orbán, Milei, etc. –, isso nos faz esperar que, se sua vida teve um impacto significativo, e se teve, sua morte pode ter um impacto ainda maior.”

Assim, retratam o Papa não como um ator dentro do jogo articulado pelos imperialistas e reacionários, mas como um campeão do anti-imperialismo, um Papa que, a despeito da oposição de todos, inclusive do grande polvo, da própria Igreja Católica, teria conseguido (sic) fazer ressoar “palavras pesadas, palavras sinceras”, “condenações implacáveis” contra os “poderosos”. E não só isso, o Papa teria emitido juízos que Proletari Comunisti-PCm comenta nos seguintes termos: É uma opinião dele, mas trata-se de uma análise que corresponde cientificamente à posição dos comunistas na atual situação mundial… [Expressou uma] proximidade seguramente forte e sincera em relação à crise climática mundial. Seu texto parece ser o que melhor captou, fora do campo do proletariado e da revolução, a verdadeira natureza do que se produziu nesse âmbito: a encíclica ‘Louvado sejas’.”

Esse grupelho não para por aí e, numa verdadeira orgia de pragmatismo e maquiavelismo, ressuscita o velho ditado de que “o inimigo dos nossos inimigos é nosso amigo”, frase que provocaria inveja aos intelectuais a soldo do regime dos anos 1930, que reinterpretavam segundo um viés reacionário a grande obra de ciência política “O Príncipe”.

Não satisfeito, Proletari Comunisti toma ainda em mãos o caderno e a caneta vermelha para marcar na coluna dos “maus” todos aqueles que ousarem exceder na crítica ao Papa: “Sua morte é evidentemente uma vantagem para o sistema imperialista mundial, seus governos, e não é preciso dizer que o proletariado e os comunistas sempre tiveram a respeito disso uma posição que não é tática, mas de concepção: aquilo que é danoso, incômodo e oposto ao imperialismo e seus governos é útil, direta ou indiretamente, à causa do proletariado e sua luta revolucionária para mudar o sistema social. Nesse sentido, qualquer subvaloração desse dado, decerto não uma simples opinião – é errada se presente no campo proletário ou no campo da oposição proletária popular antifascista, anticapitalista, contra a guerra, ao lado dos imigrantes, dos explorados, dos pobres do mundo…” (grifo nosso).

Até que o jogo não seja desmascarado e não se revele sua função de “conciliação dos opostos”, esse grupo não deixa, de tempos em tempos, de dizer algo que possa soar adequadamente marxista: “Não se alterou a natureza da Igreja e sua função no sistema do capital. A religião é o ópio dos povos e a Igreja é parte do sistema e das classes dominantes em todo o mundo, sobre isso não se discute. Mas, evidentemente, é um equívoco não julgarmos negativamente, como dissemos com uma expressão – tragicamente –, a ausência da voz do Papa…” Contudo, após dizer algo de marxista, recordando de forma abstrata e vazia que “a religião é o ópio dos povos”, esse grupo nos recorda que falharemos se não ficarmos sinceramente consternados com a “trágica ausência da voz do Papa”.

E agora, após expressar sua dor e participar, mesmo que apenas virtualmente, dos funerais do Papa – e certamente de maneira sincera –, eis que o rosto de Proletari Comunisti muda de expressão. De bajulador e sacerdotal, torna-se firme e orgulhoso, combativo e guerrilheiro: “Mas, evidentemente, é um equívoco não julgarmos negativamente, como dissemos com uma expressão – tragicamente –, a ausência da voz do Papa sobre os temas em que estamos empenhados numa luta que, prestem atenção, não é só um desejo de luta, mas sim uma luta para organizar e construir a vanguarda do proletariado e do povo, a frente única, o exército popular necessário para traduzir em fatos a luta contra a guerra por partes, a luta contra a barbárie que se leva a cabo em Gaza, a luta contra todo o sistema que produz fascismo, reação, racismo, opressão dos povos, obscurantismo. Justamente por isso dizemos que, se existe uma autêntica aspiração a lutar e a construir forças capazes de obter resultados até o ponto de arruinar o sistema, é evidente que não se pode ignorar o elemento negativo decorrente da morte do Papa…” (grifo nosso).

Esses personagens tentam ainda, com uma análise tão brilhante quão funambulesca, identificar os verdadeiros responsáveis, ou seja, segundo eles, as próprias massas católicas, que não teriam prestado a devida atenção e o devido interesse aos apelos do Papa. Enfim, são as massas que teriam contribuído, segundo Proletari Comunisti, para a suposta escassa eficácia concreta dos apelos de seu Papa “anti-imperialista”: “Podemos provavelmente assistir, por efeito dos elementos de comunicação e de dramática clareza entre as massas católicas, a um reconhecimento efetivo das coisas que Bergoglio sustentavae que elas tratam de tomar para si e transformar em ações, em fatos, aqui e agora, para levar a efeito essa contradição dentro do sistema social que a produziu. Portanto, em certo sentido, a morte pode influenciar positivamente o despertar das massas católicas de parte proletária e popular sobre a natureza das coisas e sobre a necessidade de encarnar as palavras em empenho social e cultural.”

Se há pouco tagarelavam euforicamente sobre o “partido guerrilheiro”, agora retornam à humilde sobriedade. De todo modo, sua conferência chegava ao fim, e discursos demasiado revolucionários poderiam quebrar o encanto beatífico.

NUOVA EGEMONIA

Maio de 2025