A vida em Tocache sob o Sendero Luminoso

Nota do blog: Publicamos a seguir extratos do capítulo 7 (“A nova estratégia”) do livro “A quarta espada – A história de Abimael Guzmán e do Sendero Luminoso”, de Santiago Roncagliolo, no qual o autor entrevista Nancy Obregón, que viveu em uma região controlada pelo Partido Comunista do Peru – PCP. Neste relato, pode-se observar a relação entre os guerrilheiros e as massas de Tocache, no departamento de San Martín, bem como a repressão violenta exercida pelas forças reacionárias do velho Estado peruano contra os moradores locais.


A vida em Tocache sob o Sendero Luminoso

Nancy Obregón não é o tipo de garota com quem você queira ter uma briga. Ela sabe usar armas e bloquear estra­das. Na última vez em que apareceu na tevê, o jornalista a repreendeu, mais do que a entrevistou: narcotraficante, mal-educada, mentirosa, esses foram alguns dos seus amá­veis epítetos. Muitas vozes no governo a acusam, além dis­so, de ter sido aliada do Sendero Luminoso. E dois dias antes da nossa entrevista, ela foi capa de um jornal ao afir­mar que o chefe da Inteligência Vladimiro Montesinos visi­tava frequentemente sua zona de cocaína durante o governo de Alberto Fujimori.

Nancy me recebe no mercado de Santa Anita, nos arre­dores de Lima, onde quase 3 mil camponeses produtores de folha de coca celebram seu congresso nacional. Embora não presida a associação, no momento é ela que tem o coman­do, porque o secretário-geral está preso. Durante o congres­so, dorme no mercado, e me recebe junto a um curral de cabras e lhamas. Numa barraca mal abastecida, tomamos uma Coca-Cola que eu tenho de pagar. Honestamente, se ela é uma mafiosa forrada com o dinheiro das drogas, então disfarça isso muito bem.

Nancy cresceu perto daqui, nos bairros populares de Lima, onde sua família criava porcos. No final dos anos 1980, a economia familiar se complicou cada vez mais, até que os pais decidiram retornar ao seu lugar de origem. “Aqui, vivíamos na mais extrema pobreza, sem possibilidades de educação ou de crescimento. Meus pais são camponeses de selva, onde a família pelo menos podia trabalhar junta, cultivando para todos comerem. Então, voltaram para lá”.

A jovem Nancy ficou em Lima, pois tinha um trabalho na Força Aérea Peruana. E um marido. Mas visitava sua família com frequência. Assim conheceu de perto a selva. No final dos anos 1980, a província selvática de Tocache era um lugar onde “morria gente em cada esquina. Em Tocache, você não podia olhar um narco na cara. E todos eram narcos armados. Todas as noites havia festas, e todas as noites havia mortos. Assaltavam as pessoas, estupravam as mulheres e controlavam a polícia, que protegia seus negócios”.

Segundo Nancy, os traficantes pagavam 30 mil dólares para cada voo com coca que saía de Tocache. E saíam dez voos por dia. Uma parte desse dinheiro era para a polícia, e outra parte ficava para os municípios. “O primeiro andar da Municipalidade Provincial de Tocache, por exemplo, foi construído com dinheiro do narcotráfico”.

Um dia, em visita à região, Nancy foi passear com o marido pelo monte e encontrou gente armada que os chamava de “companheiros”. Não era necessário ser um especialista para reconhecer as colunas do Sendero Luminoso, que então iniciavam suas incursões por aquela zona. Nancy e o marido estremeceram: ela era militar e ele, policial. “Tínhamos ouvido falar do Sendero, mas nunca o tínhamos visto. No entanto, a cortesia e a educação deles nos surpreenderam. Gente preparada, universitária, alguns branquinhos como você. Começavam a se aproximar das aldeias mais violentas e mais golpeadas pela máfia. Ali, o Sendero começou a matar os malfeitores, expulsou as prostitutas, limpou Tocache e declarou uma guerra frontal à máfia. E as pessoas começaram a respaldá-los. Fala-se de narcoterrorismo, de vínculos entre o Sendero e os traficantes. Mas o Sendero jamais apoiou os narcos. O Exército e a polícia sim, esses os defendiam. Até cuidavam das casas deles”.

A vida em Tocache era uma corda bamba: você caía ou para um lado ou para o outro. Embora fossem membros das forças da ordem, Nancy e o marido não podiam informar seus comandos em Lima sobre o que acontecia na selva. Em primeiro lugar, não podiam denunciar que seus colegas se comportavam pior que os subversivos. Em segundo lugar, temiam ser ouvidos por infiltrados senderistas. “Parece mentira, mas, se dizíamos algo em Lima, na selva se sabia de imediato. E na selva estavam nossas famílias. Se contássemos o que acontecia, teríamos problemas com o Sendero”.

Num país ainda abalado pela lembrança da guerra, é muito ousado dizer algo assim. (….)

Quando ela fala, é o Estado que parece um agrupamento terrorista. O Sendero, em contraposição, atua como um Estado.

Num dia de 1990, o Sendero decretou uma paralisação armada em Tocache, onde Nancy morava. Para contê-la, a polícia entrou num vilarejo da zona. Cortou os seios de uma mulher e mataram várias crianças. Os moradores tiveram que correr para salvar a vida.

A vingança do Sendero não foi mais amável: os guerrilheiros procuraram os autores do massacre e os aniquilaram um por um. Alguns cadáveres foram jogados nos rios e outros, enterrados sob as palmeiras. Os policiais tinham atacado sem autorização dos seus superiores, por isso ninguém foi resgatá-los.

“Então aprendi a ver o Sendero Luminoso como um leão que só mata quando tem fome”, diz Nancy. “Os senderistas não estupravam e nem torturavam, ao contrário, respeitavam até os prisioneiros que iam executar. Eles os matavam, mas antes lhes davam de comer. Além disso, enfatizavam muito a educação. Diziam que a má educação era um resquício do Estado colonial dos espanhóis e que, se quiséssemos fazer um novo Estado, tínhamos de começar por respeitar”.

Os senderistas instalavam escolas e impunham uma rígida moral nos territórios que controlavam. As crianças das “zonas liberadas” não sabiam cantar o hino nacional, mas sim “A Internacional”. Não comemoravam a independência, mas o início da “guerra popular” e o “Dia do Heroísmo”.

Para os “companheiros”, era necessário conservar o vínculo da família a fim de mudar o país. As mulheres não podiam usar minissaias e os palavrões eram proibidos, assim como a infidelidade. Seus princípios básicos eram não ser ladrão, não ser dedo-duro e não ser ocioso, uma adaptação guerrilheira das três leis do Império inca. Vagabundos e bêbados eram proscritos. As prostitutas eram afastadas das aldeias mas podiam trabalhar, desde que não fossem escandalosas.

Segundo Nancy, as fofoqueiras também recebiam castigo. Tinham de limpar a aldeia com um cartaz nas costas que dizia: “Isto me acontece porque eu sou mexeriqueira”.

A estratégia política do Sendero era criar Estado onde não o havia. Além da educação, eles assumiam funções de poder judiciário. Nancy assistiu a um de seus julgamentos sumários. O réu, um homem conhecido no lugar, era acusado de estupro e assassinato. Nancy não conseguia acreditar. Ela conhecia o homem. Disse que aquilo era uma calúnia. Pela primeira vez, a aldeia se rebelou contra o Sendero. As pessoas vieram defender o réu. A mulher dele chorava. Perguntaram aos senderistas que provas eles tinham do delito. “Os guerrilheiros nos mostraram a vítima. Numa de suas patrulhas, haviam encontrado a moça, meio morta, rodeada pelos cadáveres dos irmãos e do marido, assassinados pelo acusado na noite anterior. Então a levaram a uma aldeia próxima e trouxeram um médico à base de pancada. A moça passou um mês convalescendo, mas se curou. No dia do julgamento, apareceu para acusar o assassino diante de toda a aldeia. Estava totalmente vendada. Ele começou a correr, mas o senderistas o alcançaram. Quando iam matá-lo, empunharam as metralhadoras. Logo na quinta tentativa, explodiram seus miolos. Disseram que só iam enterrá-lo porque ele era conhecido na aldeia. Mas em princípio, diziam, aquele miserável devia apodrecer ao relento”.

Parece difícil entender que isso fosse bem recebido pela população. Mas fica mais compreensível se compararmos com o comportamento do Estado peruano, no qual a corrupção alcançava níveis de história de terror; no final de 1991, numa nova legislação reduziu o poder da divisão policial de narcótico e outorgou amplos poderes na região às Forças Armadas. Atrás delas – ou talvez bem mais à frente – estava Vladimiro Montesinos, o assessor de Inteligência do presidente Fujimori.

Pouco depois, o major Evaristo Castillo descobriu que seus companheiros de armas encobriam e apoiavam os narcos, aos quais passavam informações. Denunciou isso às mais altas instâncias. O comando agradeceu mandando revista sua casa e confiscar seus documentos, e depois o expulsou por “insultar seus superiores”.

Em 1996, o narcotraficante Demetrio Chávez Peñaherera, durante seu julgamento, admitiu ante a imprensa que pagava 50 mil dólares mensais a Montesinos para que este sabotasse as possíveis batidas da DEA [Drug Enforcement Administration ou Força Administrativa de Narcóticos] norte-americana e garantisse a segurança de suas remessas de cocaína. Além disso, Chávez tinha aberto um bordel para os soldados e arcava com os gastos deles nos restaurantes. Considerava que isso fazia parte do seu “apoio à luta contra-subversão”.

Após essas escandalosas declarações, a procuradora-geral Blanca Nélida Colán teve de tomar partido. Essa senhora afirmou num programa de tevê que havia perguntado ao doutor Montesinos se tais acusações eram corretas. Ele tinha negado. Ela disse que não se podia colocar a palavra de um narcotraficante acima da de um herói nacional como o assessor de Inteligência. Enfatizou que esse tipo de declaração prejudicava a imagem do país frente aos investidores estrangeiros. O Ministério Público não investigou.

O traficante estava isolado num quartel militar. Não lhe eram permitidas visitas. Dias depois, em seu comparecimento seguinte ao tribunal, apareceu drogado. Seu discurso era incoerente. Ele não articulava as orações. Negou o que dissera na vez anterior. O advogado protestou pelo estado de saúde do preso e porque não o tinham deixado vê-lo antes da sessão. Seu protesto foi negado.

Assim, portanto, as Forças Armadas, que tinham ordem de acabar com o Sendero na zona, eram mais corruptas e brutais. Nancy recorda particularmente um militar, o capitão Cienfuegos, “que uma vez arrancou a orelha de um senderista diante de toda aldeia, inclusive das crianças, em plena luz do sol, e jogou sal na ferida”.

A família de Nancy também sofreu vexames naquele ano. Certa madrugada, entraram em sua casa uns encapuzados, jogaram seu marido no chão e partiram para cima dele aos chutes. Sua mãe também foi jogada no chão com um pontapé. Nancy devolveu os chutes e desarmou um soldado. Os atacantes meteriam o cano de um fuzil automático na boca do seu filho. O menino tinha 3 anos.

“Eles diziam que eram terroristas e tinham vindo porque, dias antes, havíamos recebido em casa um destacamento militar que nos pedia água. Na realidade, nós os reconhecemos apesar dos capuzes. Eram esse mesmo destacamento militar. E queriam levar minha televisão colorida”.

O problema é que eles eram péssimos atores. Disseram: “No chão, filhos-da-puta!”, e entraram com muita violência. Nancy e seu marido, que tinham estudado táticas contra-subversivas, sabiam que quem age assim não são os guerrilheiros, mas os militares. Os guerrilheiros, segundo ela, cumprimentam com respeito, chamam seu prisioneiro de “companheiro”, explicam a ele muito corretamente por que vão matá-lo e o executam com um tiro. (…)

Segundo Nancy, “os senderistas também cometeram excessos e erros. Não mais, porém, do que os narcos e não mais do que os militares, pelo menos em Tocache”.

Por isso mesmo, ali as colunas senderistas resistiram até muito depois da queda de Abimael Guzmán. (…) Em contraposição, na outra frente, a capital, o sucesso no fim das contas não foi completo e retumbante. Nas cidades, os guerrilheiros estão mais expostos e as autoridades, mais estabelecidas. Hobsbawn já havia advertido sobre os riscos:

Por maior que seja o apoio insurrecional nas cidades, e mesmo que a origem dos seus dirigentes seja urbana, as cidades, e especialmente as capitais, são o último reduto que um exército guerrilheiro capturará. São o último ponto que um guerrilheiro atacará, a menos que esteja pessimamente aconselhado.