Notas sobre a História do Partido Comunista da Turquia/Marxista-Leninista (TKP/ML)
Nota do blog: Publicamos tradução não oficial para português do Brasil de um compilado de uma série de quatro capítulos sobre a história do Partido Comunista da Turquia/Marxista-Leninista (TKP/ML), que dirige a Guerra Popular na Turquia, publicada pelo Periódico Mural, órgão da imprensa popular e democrática do México, o qual indica que: “Não se trata da história oficial nem de um relato completo, mas destacamos pontos importantes da trajetória do Partido como parte de nossos esforços no espírito do internacionalismo proletário, apoiando as Guerras Populares em curso. O TKP/ML dirige uma das quatro Guerras Populares no mundo. Com mais de 50 anos de história, o Partido acumulou uma profunda experiência na luta armada em um país oprimido, onde se desenvolve um capitalismo burocrático sobre uma base semifeudal. Na Turquia, convivem diversos povos, enquanto o imperialismo ianque controla a economia por meio de seus fantoches, ditando a política do país. Ou seja, a semifeudalidade e a semicolonialidade determinam a existência do capitalismo burocrático, que oprime a classe e os povos da Turquia.”
Consideramos este um documento de grande valia aos revolucionários e marxistas-leninistas-maoistas brasileiros, em que é possível colher importantes lições do processo de reconstituição do TKP/ML e do início e desenvolvimento da Guerra Popular na Turquia, bem como da encarniçada luta dos autênticos comunistas turcos contra os liquidacionistas e capitulacionistas do “TKP menos” (TKP-ML) – defendidos por seus pares criptotrotskistas, velhas ou “novas” crostas purulentas que querem se intitular “maoistas”, mundo afora –, para lutar persistentemente por desenvolver a Revolução Brasileira como parte e a serviço da Revolução Mundial.
Índice:
I – A fundação do Partido por Mustafa Suphi e sua reconstituição por Ibrahim Kaypakkaya
II – O período posterior ao assassinato de Ibrahim Kaypakkaya e o desenvolvimento do Partido
III – A divisão do Partido e os capituladores do TKP-ML
IV – O Primeiro Congresso do Partido e o desenvolvimento da Guerra Popular
Notas sobre a História do Partido Comunista da Turquia/Marxista-Leninista (TKP/ML)
I – A fundação do Partido por Mustafa Suphi e sua reconstituição por Ibrahim Kaypakkaya

Em 1920, Mustafa Suphi fundou o Partido Comunista da Turquia (TKP) em Baku, com o apoio da URSS. O Partido fazia parte da Internacional Comunista, mas apenas um ano após sua fundação, Mustafa Suphi e outros membros do Comitê Central foram assassinados. A direção que os sucedeu adotou uma linha oportunista e revisionista. Durante os 50 anos seguintes, o proletariado turco e as lutas populares na Turquia não tiveram uma direção comunista. O TKP sustentou uma posição kemalista1 em relação à questão curda e não reconheceu a luta curda como parte da revolução. Por essa limitação, o TKP não apoiou o povo curdo, mas sim o governo contra a rebelião curda.
Ibrahim Kaypakkaya, carinhosamente chamado de “Ibo”, foi chefe do processo de reconstituição do Partido Comunista e do início da Guerra Popular na Turquia. Ele fundou o TKP/ML em 24 de abril de 1972, como sucessor do TKP de Mustafa Suphi. No mesmo ano de sua formação, o Partido deu início à Guerra Popular. Um ano depois, o camarada Kaypakkaya pagou com a vida esse êxito da classe operária. Preso e torturado, foi assassinado pelos militares fascistas em 18 de maio de 1973, na prisão militar de Diyarbakir. No entanto, sua perda foi apenas física, pois seu pensamento vive e irradia o caminho da revolução turca. Através de seus escritos, Kaypakkaya traçou este caminho revolucionário; rompeu com o kemalismo e defendeu o direito à autodeterminação do povo curdo em sua obra “A questão curda na Turquia”. O TKP/ML e Kaypakkaya sempre sustentaram o caminho da luta armada, sem jamais degenerar a uma posição eleitoreira.
Em meio à Grande Revolução Cultural Proletária, formaram-se, em todo o mundo, partidos comunistas e dirigentes da estatura do Presidente Gonzalo, Charu Mazumdar, José Sison e Ibrahim Kaypakkaya. Todos seguiram o Presidente Mao na luta contra o revisionismo da URSS social-imperialista. Ibrahim Kaypakkaya também rompeu com o pacifismo dos revisionistas na Turquia. Sua vida e feitos estão intimamente ligados à sua origem de classe. Ele nasceu em uma família de camponeses pobres na província de Çorum, no norte da Turquia. Crescer na pobreza do campo estreitou seu vínculo ao campesinato e à luta pela terra. Em meados da década de 1960, Ibo estuda na Universidade de Istambul e toma parte do movimento estudantil.
Naquele período, o imperialismo ianque e outras potências já haviam penetrado no país com suas bases militares. O plano dos Estados Unidos na guerra fria contra a URSS social-imperialista era desenvolver uma base militar com armas nucleares na Turquia, que era a fronteira sul da OTAN. Contra tal plano, paralelamente, cresce uma grande resistência popular. O movimento estudantil de Istambul luta contra a base da frota naval dos EUA. A luta anti-imperialista se desenvolve em um momento de crise econômica, o que permite ao movimento estudantil unificar-se com o movimento operário e com as lutas dos camponeses pobres. Por todo o país, são feitas ocupações em universidades, fábricas e terras; as massas rebelam-se contra os tiranos. Ibrahim Kaypakkaya foi parte ativa de todo o processo. Ele logra mobilizar e organizar jovens estudantes e funda sua primeira organização, “Fikir Kulüp”,2 que funciona como uma organização de debate estudantil.
Os “Fikir Kulüps” realizam um importante trabalho na disseminação dos ideais revolucionários e Kaypakkaya aproveita-se disso para elevar a organização dos estudantes. Ao mesmo tempo, escreve para periódicos como “Türk Solu Dergisi”3 e desenvolve suas ideias. Naquela época, a revista era o centro do movimento estudantil na universidade.
Antes de fundar o TKP/ML, Ibo passou por vários partidos revisionistas, como o TIIKP,4 o que lhe permitiu desenvolver suas posições marxistas na luta contra o revisionismo. Sua obra “As origens e o desenvolvimento das nossas diferenças com o revisionismo Shafak: crítica geral ao TIIKP” é fundamental para compreender seu desenvolvimento ideológico e político.
Paralelamente à fundação do TKP/ML, foram sendo formadas diversas forças armadas. Muitas dessas forças não existem atualmente ou assumiram outra forma. Apesar de todas as dificuldades, o TKP/ML e seu exército, o TIKKO, permanecem como uma força firme até hoje.
A partir de 1969, Kaypakkaya desenvolve atividades revolucionárias em fábricas, fortalecendo sua relação com a classe operária. Participou de suas lutas e tornou-se um autêntico dirigente delas.
Em 12 de março de 1971, ocorre o golpe militar, último recurso para a salvação da grande burguesia contra as lutas populares. Com o estado de emergência, o regime justifica a repressão, desencadeando assassinatos, torturas, despejos e também a ocupação militar de fábricas e universidades. Jornais progressistas são proibidos e organizações democráticas e revolucionárias, banidas. Muitos jovens, incluindo Kaypakkaya, deixam suas cidades e se deslocam para o campo. Nesse período, ele vive em Çorum e, junto de seus camaradas, realiza trabalho entre as massas e escreve sua obra “Uma análise da estrutura de classes no distrito de Çorum”, importante trabalho para o desenvolvimento da compreensão da questão semifeudal na Turquia.
Nesse tempo, Ibo começa a trabalhar no processo organizativo. Na região de Anatólia, os camaradas são distribuídos para o desenvolvimento do processo revolucionário. Isso ocorre nos distritos de Dersim,5 Malatya, Antep, Haydaran, Nurkaklar e nas montanhas de Düzgün, todas áreas com um histórico de lutas e rebeliões. Kaypakkaya se desloca entre essas regiões, Istambul e Ancara, organizando e treinando novas áreas para a luta armada. Kaypakkaya e seus camaradas desenvolvem as primeiras ações armadas, como o aniquilamento seletivo de informantes. Por exemplo, após uma investigação na região de Malatya, os revolucionários executam o delator responsável pela morte de três companheiros, Sinan Cemgil, Kadir Manga e Alparslan Özdogan, que faziam parte do THKO.6
Após sua fundação, o TKP/ML forma o TIKKO7 e as primeiras unidades guerrilheiras armadas. O TIKKO inicia suas primeiras atividades e Dersim, região que se tornou sua zona principal naquela época, e que ainda hoje é uma importante zona de operações para a guerrilha maoista.
Em janeiro de 1973, uma unidade armada do TIKKO que realizava uma operação em Dersim entrou em combate com o exército reacionário. No confronto, Ali Haydar Yildiz8 foi morto, enquanto Ibrahim Kaypakkaya ficou ferido. O ataque foi inesperado, forçando o grupo a recuar. Kaypakkaya se esconde em um vilarejo, onde os moradores lhe oferecem ajuda. Posteriormente, Ibo deixa o local e encontra refúgio na casa de um professor rural em outro povoado. No entanto, este o trai e traz consigo os militares, que capturam Kaypakkaya. Quarenta anos depois, o Partido consegue encontrar o canalha que entregou o chefe do proletariado turco; um julgamento revolucionário o condena à morte como punição pela mais alta traição ao povo, e o traidor é justiçado pelas forças armadas revolucionárias.
Durante três meses, o exército torturou o camarada Kaypakkaya tentando arrancar dele os segredos do Partido, mas Ibrahim, com sua têmpera de aço, permaneceu em silêncio o tempo todo. Diante de um juiz, ele defendeu seu ponto de vista e agitou a concepção proletária do mundo. Ibrahim enalteceu a ideologia do proletariado, mas guardou bravamente cada segredo do Partido. Quando o velho Estado e o exército reacionário perceberam que era impossível quebrar o camarada Kaypakkaya, decidiram assassiná-lo. Sua execução é cumprida e o velho Estado tenta humilhar sua memória entregando seu corpo ao pai dentro de um saco de lixo.
Todos os anos, no dia 18 de maio, o TKP/ML e milhares de seus apoiadores lembram Ibrahim Kaypakkaya realizando ações na Turquia e em diversos países da Europa, como Alemanha, Grécia e França. Com sua vida e obra, Kaypakkaya tornou-se um símbolo de resistência na Turquia e no mundo. Sua morte não pôs fim à luta revolucionária, e a Guerra Popular dirigida pelo Partido continua.
II – O período posterior ao assassinato de Ibrahim Kaypakkaya e o desenvolvimento do Partido

O assassinato de Ibrahim Kaypakkaya foi um duro golpe para o jovem Partido. Kaypakkaya era o centro do Partido, seu mais querido dirigente, e indicou o caminho da Revolução de Nova Democracia na Turquia. Suas obras são a base do Partido até hoje. Sua perda resultou na falta de uma direção central sólida. O Partido se dispersou em diversas estruturas regionais. Como consequência, de 1972 a 1981, o Partido não teve um secretário-geral. Em uma árdua luta de nove anos contra o revisionismo, principalmente contra a corrente hoxhista, o camarada Süleyman Çihan conseguiu retomar e impor o rumo correto. Süleyman Çihan forjou novamente a unidade do Partido e se tornou o segundo secretário-geral. Nessa luta, o Partido desenvolveu suas posições. No entanto, ele foi capturado pelo regime militar no verão de 1981, pouco depois de assumir a direção do Partido. Em setembro, após meses de tortura, foi assassinado por seus algozes. Assim como Ibrahim Kaypakkaya, ele não revelou nada, nem mesmo seu nome. Nos momentos mais sombrios enfrentados pelo Partido, o camarada Süleyman Çihan encarnou as ideias de Ibrahim Kaypakkaya e preservou seu legado.
Parte da obra do camarada Süleyman Çihan foi a formação do Comando-Geral do TIKKO (direção nacional e unitária do TIKKO), contribuindo significativamente para o desenvolvimento da guerra de guerrilhas. As unidades do TIKKO operaram principalmente na região de Dersim, mas o velho Estado turco desenvolveu uma guerra de baixa intensidade contra o TKP/ML e o TIKKO. Centenas de combatentes foram mortos e milhares presos, representando um grande problema para o Partido. O TIKKO é um exército de novo tipo. Ao longo de sua história, o TIKKO promoveu um profundo trabalho cultural. A nova cultura, e particularmente as canções revolucionárias, são uma parte importante do trabalho de propaganda dos camaradas turcos. Nesse contexto, destaca-se também o documentário sobre a vida na guerrilha “Quatro Estações”, de 2014.
As atividades do TIKKO, dese o início de suas operações, foram desenvolvidas em várias frentes – e não apenas com armas – em meio à guerra de baixa intensidade travada pelo velho Estado turco sob o protetorado do imperialismo. Nesse sentido, é interessante observar o que planteia o Partido em relação a essa estratégia contrainsurgente.
“A ‘Guerra de Baixa Intensidade’ é uma guerra militar, política, econômica, cultural e psicológica. Comparativamente, sua intensidade é maior do que as rivalidades normais, que continuam em tempos de paz. E sua intensidade é menor em comparação com as guerras clássicas entre Estados. Pode ocorrer entre Estados ou grupos. Em conflitos prolongados, manifesta-se em luta ideológica. A ‘Guerra de Baixa Intensidade’ começa com atividades como sabotagem e prossegue com o uso das forças armadas. Utiliza meios políticos, econômicos, culturais, militares e de informação por meio de uma ampla gama de atividades.”9
O velho Estado turco tem como alvo as forças guerrilheiras maoistas e tenta destruir sua base social. Para atingir esse objetivo, o regime organiza todas as suas instituições sob a estratégia da “guerra de baixa intensidade”; para isso, impõe estados de emergência e utiliza unidades especiais do exército, polícia militar, a MIT,10 a polícia e grupos paramilitares. Todas essas são formações armadas da contrarrevolução. Com o apoio da CIA, o Estado desenvolveu a formação fascista do MHP.11 Juntos, criaram milícias anticomunistas frequentemente ligadas a assassinatos e ataques contra pessoas progressistas e rotuladas como “antiturcas”.
O ápice dessa política contrainsurgente pode ser visto nas regiões curdas. Como resultado da política do país “soberano”, o Estado turco evacuou o massacrou povoados inteiros em zonas guerrilheiras, como Dersim. Em 1975, pelo menos 161.293 habitantes viviam nessa região; em 2020, restavam apenas 83.061. Por quê? A “justificativa” para essa política de deslocamento forçado ou evacuação é que essas áreas seriam “parques nacionais”. O verdadeiro objetivo é “cortar a água do peixe”, despovoando essas regiões para que a guerrilha não tenha bases de apoio. No restante das localidades, foram impostas as chamadas “guardas populares”, parte da militarização do campo para colocar massas contra massas. Entre 1984 e 1998, o Estado assassinou mais de 20 mil pessoas. Essa política visa intimidar a população. O exército reacionário obriga os habitantes dos povoados a ingressarem nas “guardas populares”, e quando estes recusam, o exército incendeia suas casas. Esse fenômeno ficou conhecido no México como “leva”, referindo-se ao recrutamento forçado para os exércitos mercenários do velho Estado, algo presente desde a revolução burguesa inconclusa até os dias atuais, especialmente nas áreas controladas pelos senhores da guerra.
Kazım Çelik foi o continuador de Süleyman Çihan. O camarada Çelik foi o terceiro secretário-geral do Partido e lutou contra o regime militar, combatendo o pessimismo e ideias incorretas, como as teses oportunistas de que “os quadros deveriam viver na cidade para sua segurança e não nas áreas rurais perigosas”. Ele fortaleceu a relação entre as massas e o Partido aplicando corretamente o princípio que nos ensina a viver, trabalhar e lutar com o povo. Suas ideias criaram raízes profundas entre as massas, mesmo em meio a uma grande onda de repressão desatada pelo regime militar. O camarada Kazım Çelik combateu na linha de frente da guerrilha contra o regime militar e tombou em 1987, em uma batalha contra o exército turco.
O Partido fez grandes esforços para desenvolver a Guerra Popular em meio à guerra de baixa intensidade. Uma decisão da Quarta Conferência, de 1991, foi o desenvolvimento da Guerra Popular, na qual o Partido afirmou: “Nossa Quarta Conferência tem a consigna ‘Sustentar a luta armada, desenvolver a guerra de guerrilhas e expandir para novas áreas’.”12 A conferência selecionou regiões e definiu a tática militar ofensiva, convocando as forças do Partido a seguirem esse plano.
Embora não tenha sido possível um avanço significativo da Guerra Popular, a principal contribuição do TKP/ML e de sua direção foi nunca renunciar a ela e esforçar-se por retificar os problemas no desenvolvimento do Partido e da Guerra Popular. A principal razão para o impasse foram as limitações na compreensão do marxismo-leninismo-maoismo. Até 1993, o TKP/ML não o assumia como tal. Em seu documento “Marxismo-leninismo-maoismo contemporâneo”, de 1998, o Partido explicou sua concepção da ideologia científica do proletariado internacional. Esse foi um ponto crucial em seu desenvolvimento. Posteriormente, com sua adesão à “Declaração Política e de Princípios” da Liga Comunista Internacional e após o desenvolvimento de uma importante luta de duas linhas no seio da Conferência Internacional Maoista Unificada, o TKP/ML afirma a correta definição do maoismo, que nos foi dada pelo Presidente Gonzalo, como a terceira, nova e superior etapa do marxismo, sendo este seu principal aporte de validez universal.
Até o seu Primeiro Congresso [2019], o TKP/ML desenvolveu a Guerra Popular apenas em áreas rurais, como guerra camponesa. Durante esse período, o Partido discorre sobre o caráter da Guerra Popular: “A estratégia da Guerra Popular significa mobilizar os camponeses contra as autoridades locais e centrais do sistema feudal sob a direção do Partido marxista-leninista-maoista da classe operária…”.13 No entanto, a Guerra Popular, que em sua essência é uma guerra camponesa, deve também ser uma guerra das massas populares. Hoje, após o Primeiro Congresso, o Partido desenvolve a Guerra Popular tanto em áreas rurais quanto urbanas, como uma guerra popular unitária que deve ser desenvolvida no campo e na cidade desfraldando a luta armada revolucionária. Isso representa um salto na ideologia e no desenvolvimento da guerra revolucionária.
Mehmet Demirdağ, o quarto secretário-geral do Partido e cofundador da TMLGB,14 é quem desenvolve o trabalho da juventude e logra expandi-lo por todo o país. No período anterior, o trabalho da TMLGB concentrava-se unicamente em Istambul. Muitos quadros, como o camarada Nubar,15 ingressaram em suas fileiras e abraçaram a linha do Partido. O camarada Demirdağ sistematizou a linha ideológica, política e orgânica da TMLGB e dirigiu sua construção nacional. A principal tarefa da TMLGB é preparar a juventude para ingressar no Partido da classe operária, servindo à classe e à revolução. Para atingir esse objetivo, os jovens participam ativamente da luta de classes, inclusive com armas nas mãos. Trata-se de uma importante escola da luta de classes e da luta de duas linhas para os jovens combatentes.
O camarada Mehmet Demirdağ combateu as posições de direita do DABK (Comitê Regional da Anatólia Oriental), que se dividiu em 1988 para formar o “TKP(ML)”. Mais tarde, a Quarta Conferência aceitou a reunificação em 1993, mas logo depois o DABK novamente estimulou a cisão. Esse grupo realizou seu primeiro congresso em 2003 e se renomeou como MKP.16 O MKP desenvolveu posições revisionistas, semelhantemente à Linha Oportunista de Direita (LOD) no Peru, ou ao hoxhismo e ao trotskismo a nível internacional. Todos eles atuam como bombeiros da revolução, seu objetivo é lançar sujeira nos olhos do proletariado e do povo traficando com os princípios do comunismo. O MKP diz que a Turquia “não é um país oprimido, mas um país com capitalismo desenvolvido, e que o caráter da revolução na Turquia deve ser socialista”. Com essa posição, o MKP isola o proletariado de seus aliados e abandona as tarefas democráticas da revolução proletária em sua primeira etapa, tornando assim impossível o desenvolvimento das forças produtivas materiais e inconcebível a edificação do modo de produção socialista. Sem isso, o proletariado não conta com seu aliado natural, o campesinato pobre, e a revolução perde sua força principal.
O TKP/ML desenvolveu uma importante crítica contra essa posição. O Partido explicou o caráter semifeudal do país, o que é crucial para defender o caráter da revolução. O problema de quem é aliado do proletariado e quem não é representa uma questão de vida ou morte para a revolução. O Partido afirma:
“Em países como o nosso, o nível específico de desenvolvimento capitalista não pode ser considerado um resultado da política geral do imperialismo. É antes um elemento secundário, produto e fato da pilhagem e escravização imperialistas, que constituem a essência da política imperialista. Uma perspectiva contrária resultaria em depositar esperanças no sistema de roubo imperialista chamado de reestruturação econômica, e em aplaudir a tentativa de pilhagem ilimitada e desimpedida que visa abrir até mesmo o menor vilarejo do país à exploração do capital monopolista internacional.”
“(…) Portanto, em uma estrutura socioeconômica onde as linhas dos dois organismos se cruzam, a principal tarefa da revolução é a eliminação completa dos resquícios feudais. O grau de desenvolvimento do capitalismo não exclui essa tarefa e, portanto, tampouco o caráter da nossa revolução. O primeiro passo da nossa revolução diz respeito, essencialmente, às necessidades do campesinato. A questão camponesa continua sendo de suma importância como elo fundamental da nossa revolução…”17
O semifeudalismo constitui a base da sociedade turca e determina o caminho fundamental da revolução em sua primeira etapa, que deve ser a etapa da Nova Democracia. O TKP/ML compreende essas circunstâncias concretas e segue o caminho correto da revolução. Desmente a ideia de que o imperialismo traz desenvolvimento social a um país oprimido, pois o imperialismo representa a reação em toda linha. Em sua história posterior, o Partido, em meio à dura luta duas linhas, alcançou uma maior compreensão do marxismo-leninismo-maoismo e superou problemas importantes no desenvolvimento da Guerra Popular.
O camarada Mehmet Demirdağ caiu junto a quatro camaradas em uma batalha em Tokat, um distrito rural na região do Mar Negro. Como seus precursores, ele manteve-se firme na linha de frente da revolução. Suas últimas palavras foram: “Viva nosso Partido TKP/ML, nosso exército popular TIKKO!”.
III – A divisão do Partido e os capituladores do TKP-ML

A divisão do TKP/ML gerou confusão na Turquia e no mundo. É importante compreender esse processo e as posições envolvidas para discernir qual delas representa cada Partido.
Hoje, existem duas organizações diferentes com nomes muito semelhantes: o TKP/ML, que é o histórico Partido do camarada Ibrahim Kaypakkaya, cuja linha política e combatividade são bem conhecidas, e o TKP-ML, cujas características gerais esboçaremos. Para isso, queremos destacar alguns pontos da declaração do TKP/ML sobre essa questão, assim como alguns exemplos práticos do “trabalho” do TKP-ML.
O processo de divisão de um grupo de membros do Partido ocorreu entre 2015 e 2017. Esse período foi marcado por uma grande onda contrarrevolucionária na Turquia, em meio à qual começaram os preparativos para o Primeiro Congresso do Partido [2019]. A partir de 2015, o velho Estado turco intensificou suas agressões contra todo o movimento revolucionário e os povos da Turquia, assassinando 25 camaradas do Partido e prendendo dez de seus militantes e simpatizantes somente naquele ano. Outros grupos da luta armada revolucionária também foram alvos da reação. Na Síria, o Estado turco desenvolveu uma campanha contra o povo curdo e sua direção nacionalista, o PKK. Utilizando tanques, aviões e artilharia, impôs a ocupação de territórios no norte da Síria, refletindo as contradições interimperialistas entre Rússia e Estados Unidos, ambas superpotências em pugna.
O processo de divisão se concentrou em duas fases. A primeira foi a sabotagem da direção; a segunda consistiu em escalar os problemas em seu interior. A origem da divisão está na posição de uma camarilha surgida no seio do Comitê Central (CC). Essa fração liquidacionista planejou um golpe para tomar o controle do Partido, iniciando um conflito com uma carta que circulou entre os membros do CC. A origem do conflito foi uma acusação contra um membro, alegando que ele seria um “informante”. Essa acusação nunca foi confirmada nem demonstrada com provas, o que sugere que foi uma provocação, mas acabou gerando instabilidade dentro do Partido.
Uma parte do Comitê Central, avaliando a situação geral, decidiu condenar a tentativa de golpe após exigir as provas necessárias, pedindo uma autocrítica séria por parte da camarilha, compartilhando com a militância a situação que o Partido atravessava e abrindo a discussão partidária para mobilizar todas as estruturas.
Simultaneamente, a camarilha lançou um ataque contra o Comitê Central, argumentando que este não foi capaz de tomar decisões a tempo. Outro membro deu continuidade à conspiração e escreveu novas cartas para outras estruturas do Partido. Um membro suplente do CC espalhou uma nova mentira, alegando que “não existia uma direção autorizada”. Com isso, buscava confundir e enfraquecer a autoridade do Partido.
Os membros do Comitê Central prepararam documentos para o debate público no jornal “Komünist”, órgão central do Partido. Durante esse período, a “oposição” ameaçou publicar todos os documentos do CC. O Partido classificou esse método como trotskismo, um dos piores desvios do revisionismo contemporâneo, que sempre e em todo lugar leva ao trabalho policialesco.
A maioria do CC trabalhou para reestabelecer a direção do Partido e alcançar novamente a unidade interna. A oposição bloqueou o processo e cada tentativa de unidade, tentando gerar uma crise lançando publicações próprias em formato de livretos. A camarilha filo-trotskista ignorou todas as estruturas e a autoridade superior do Partido, criando um aparato partidário no interior deste – outra tática trotskista. Um membro da fração liquidacionista participou de uma reunião com outras organizações do movimento revolucionário. Esse membro assinou em nome do Partido naquela reunião de fundação do HBDH.18 No entanto, este funciona como um bloco caracterizado por ser uma mistura ideológica de várias expressões do revisionismo. Sua composição é a somatória dos pseudo “maoistas” do TKP-ML e do MKP,19 dos hoxhistas do MLKP20 e de vários partidecos pseudo “leninistas”, todos sob a direção do PKK,21 um partido curdo da burguesia nacionalista que serve aos interesses dos EUA. É importante apontar que o PKK é a maior organização desse bloco e mobiliza os outros membros no norte da Síria. O HBDH tem um caráter de organização frentista, mas sob hegemonia do PKK, com total submissão e aplicação de sua política. Estrategicamente, a participação do Partido da classe operária representaria a negação do papel de direção que um Partido Comunista deve assumir em todos os momentos, sendo uma expressão do nefasto revisionismo browderista e sua “unidade a todo custo”.
Em resposta, o Comitê Central do TKP/ML publicou uma declaração explicando essa situação, deslindando campos com o oportunismo e o revisionismo, e esclarecendo que o Partido jamais assinou tal rendição ao programa nacionalista-burguês do HBDH. No documento, o Partido do camarada Kaypakkaya novamente luta pela unidade interna e chama a combater o revisionismo, mas a fração divisionista recusou-se a aceitar a luta de duas linhas.
A divisão do Partido foi registrada publicamente em 19 de dezembro de 2016, quando a fração liquidacionista lançou uma declaração própria como “Comitê Provisório no Exterior”.
Em janeiro de 2017, o Partido tornou públicas suas posições sobre essa questão. Um importante esforço final foi feito em setembro do mesmo ano, enfatizando a luta de duas linhas e a unidade. O TKP/ML lutou incansavelmente para manter a unidade do Partido, enquanto a fração liquidacionista acusava a direção de tentar dividi-lo. Foi fundamental desmontar uma a uma as mentiras dos liquidacionistas, que tentaram, em vão, arrastar as massas, combatentes e quadros do Partido para seus desvios.
A posição correta do histórico Partido do camarada Kaypakkaya logrou reduzir os danos internamente. Com seu conhecimento do marxismo e a aplicação correta da luta de duas linhas, o TKP/ML impôs firmemente a concepção proletária do Partido, tal como descrita pelo camarada Stalin, quando nos ensina que o Partido não é um agrupamento de indivíduos, mas um sistema de organizações, construído de cima para baixo. Isso permite manter uma organização de vanguarda coesa, com uma linha ideológico-política e um sistema organizativo.
Em contraste, o autoproclamado TKP-ML ou “TKP menos” não representa esse tipo de organização proletária, não possui uma direção sólida nem um sistema organizativo. Como esperado, estando isolado do trabalho partidário, também se desvinculou da luta armada revolucionária e de sua organização militar, o TIKKO. O liquidacionismo afastou combatentes e massas, sem conseguir estabelecer um trabalho orgânico com a guerrilha e suas forças fundamentais em Dersim. O “TKP menos” não conseguiu desenvolver um trabalho orgânico nessa e em outras regiões, perdendo o contato com as unidades guerrilheiras e as massas que ali atuam. Isso se deve principalmente à sua submissão ao PKK, concentrando seus últimos esforços em Rojava.
A influência do “TKP menos” caiu na Turquia e, se ainda sobrevive, é graças à sua aliança com o HBDH. Sua pouca atividade ocorre em outros países, sob a direção de outras forças e em outros espaços, reunindo expressões que se isolaram do processo geral de reunificação no seio do Movimento Comunista Internacional.
O chefe e principal representante do “TKP menos” está no Curdistão e, apesar do tráfico com o nome e os princípios do camarada Ibrahim Kaypakkaya, estes nada fazem para defender sua posição em relação à questão curda. Sua atitude é de total submissão à burguesia nacionalista do PKK, e sua aliança com o imperialismo ianque é justificada pela “luta contra o Estado Islâmico”.
Atualmente, as forças armadas do PKK defendem os campos de petróleo das empresas gringas na Síria e desempenham um papel importante na balcanização desse país. O nordeste da Síria tornou-se agora um campo militar dos Estados Unidos.22 O “TKP menos” e seu “menos TIKKO” operam na Síria sob o mando do PKK, servindo como infantaria do imperialismo norte-americano para “combater o ISIS”.
Na Europa, o “TKP menos” tem alguma influência em clubes de migrantes turcos, sendo um pilar importante de seu trabalho. Esses clubes dos “menos” participam ativamente das eleições na Alemanha sob os auspícios do MLPD,23 colaborando com sua organização internacional, a ICOR.24
Em seu site, o TKP-ML publicou uma saudação do Movimento Popular Peru – Suíça, uma agência da Linha Oportunista de Direita do Peru. No seio do Movimento Comunista Internacional, essa pandilha opera na direita do movimento e está estreitamente ligada a forças como o PC(m) da Itália e o autoproclamado PC(m) do Afeganistão, que têm dirigido ataques contra a Liga Comunista Internacional. É importante destacar que os “menos” negam a Guerra Popular no Peru e na Turquia, servindo como acólitos da reação e do anticomunismo.
O Partido caracteriza o TKP-ML como um bando de liquidacionistas de direita; uma ala da pequena burguesia com uma linha ideológica, política e organizativa anarquista-liberal. Na prática, o TKP-ML nega o papel do Partido como vanguarda da revolução e a Guerra Popular como estratégia militar do proletariado.
O TKP/ML é o histórico Partido do camarada Ibrahim Kaypakkaya, e é importante que os revolucionários e comunistas de todo o mundo cerrem fileiras em torno dele. Em meio a duras provações, o Partido superou essa situação complexa e, após seu Primeiro Congresso e a luta de duas linhas, alcançou uma unidade ainda maior em torno do maoismo e do desenvolvimento da Guerra Popular na Turquia. Agora, é um Partido mais forte e atua com novo vigor no ardor do combate revolucionário.
Com sua conduta, sua determinação e seu espírito, o TKP/ML confirma que é a direção do proletariado na Turquia e conduz tenazmente a Guerra Popular e a Revolução de Nova Democracia em seu país, como parte e a serviço da Revolução Proletária Mundial.
É importante destacar que o TKP/ML é parte fundamental dos partidos e organizações maoistas que constituíram a Liga Comunista Internacional durante os trabalhos da Conferência Internacional Maoista Unificada, dando origem à nova organização internacional do proletariado.
IV – O Primeiro Congresso do Partido e o desenvolvimento da Guerra Popular

Em 2019, o Partido Comunista da Turquia realizou seu Primeiro Congresso. Esse evento expressou a mais alta determinação do Partido pela revolução e representa um marco em sua história, servindo indissoluvelmente à luta de classes do proletariado internacional.
Neste Congresso, o TKP/ML sistematizou suas experiências de luta desde 1972 e reafirmou a justeza das obras e aportes teóricos do camarada Ibrahim Kaypakkaya. Além disso, o Congresso ratificou a estratégia da Guerra Popular Prolongada; o caráter da revolução nos países oprimidos – como a Turquia – como Revolução de Nova Democracia, na qual o campesinato é a força principal e o proletariado é a força dirigente; a necessidade fundamental dos três instrumentos indispensáveis para a revolução (Partido Comunista, Exército Popular e Frente Revolucionária de Massas).
A preparação do Congresso foi crucial para enfrentar os problemas que o Partido sofria, tendo início em 2015 para deter a atividade destrutiva do revisionismo, que finalmente concluiu sua guinada à direita após a cisão e formação do chamado TKP-ML.25 Também representou a resposta organizada do proletariado à ofensiva contrarrevolucionária do velho Estado, expressa em massacres contra o povo.
O tratamento correto das contradições é uma tarefa que cabe à vanguarda do proletariado, e a ela corresponde plantear as soluções. Por isso, o Partido do camarada Kaypakkaya conduziu discussões e debates em torno do contexto político internacional e nacional, da situação orgânica do Partido e da Guerra Popular em curso, permitindo que a luta de duas linhas cumprisse seu papel de alcançar novos e mais altos níveis de unidade, demarcando posições e combatendo o revisionismo. Assim, a justa e correta condução do Congresso permitiu corrigir erros importantes do passado, superando também o estancamento da Guerra Popular e dando novos impulsos ao desenvolvimento da luta de classes.
A reação tem sido implacável contra o Partido e as resoluções do seu Primeiro Congresso porque, ciente da sua influência entre as massas e da vitória alcançada sobre o revisionismo contemporâneo, tem procurado destruir o TKP/ML mediante a perseguição e o terror.
Nesse contexto, o regime lançou uma operação sanguinária nas zonas guerrilheiras de Dersim entre setembro e outubro de 2020, com o objetivo de assassinar o camarada Nubar, identificado como membro do Comitê Central e dirigente das forças guerrilheiras na região.
O exército reacionário evacuou todos os povoados no distrito de Ovacık, em Dersim, concentrou uma grande força militar contrainsurgente que massacrou a população em meio ao deslocamento forçado. Inicialmente, utilizou drones para o trabalho de inteligência, mapeando locais, rotas de acesso terrestre, aldeias, dados demográficos, etc. Em seguida, empregou aviões, helicópteros e drones armados que incluíam o uso de gases tóxicos. Pelo menos 1.000 soldados de infantaria foram enviados à zona. Finalmente, em meio à caçada, as forças inimigas conseguiram cercar a unidade do camarada Nubar e, após três dias, o exército bombardeou a área para aniquilar as forças da revolução.
Com essa operação, a tirania assassinou dois importantes camaradas que encarnavam tanto o mando político como o mando militar. Os camaradas Nubar e Rosa assumiam essas responsabilidades no TKP/ML e no TIKKO, respectivamente. Ambos estavam em uma lista de procurados pelo regime, que já havia sido divulgada como parte dos planos contrainsurgentes do Estado.
O camarada Nubar organizou por mais de 10 anos a guerra de guerrilhas em Dersim, sendo um importante dirigente do Partido com a responsabilidade de aplicar sua linha política. Como quadro provado do Partido, Nubar resistiu à tortura na prisão em 2004 e conquistou grande autoridade moral e política entre a militância. Durante o período da divisão interna, o camarada organizou a luta de duas linhas dentro das unidades da guerrilha maoista, cerrando fileiras em torno do Partido do camarada Kaypakkaya e não deixando espaço para os liquidacionistas.
A camarada Rosa, por sua vez, era comandante de uma unidade guerrilheira em Dersim e aspirante a membro do Partido. Ela trabalhava sob a orientação política do camarada Nubar e demonstrou grande capacidade e dedicação em todas as suas tarefas. Rosa nasceu e cresceu em Dersim e, como descreve em Venancia o cantor nicaraguense Luis Enrique Mejía Godoy, por nascer na montanha foi filha da guerrilha. Sua irmã também o foi, e ambas serviram o povo e a revolução de todo o coração.
A perda desses e de outros camaradas, como Özgür e Asmin, no mesmo período, representou um duro golpe para o TKP/M, e deve ser compreendida como a resposta furiosa da reação contra o Congresso do Partido, que constitui uma vitória para a classe e a luta armada revolucionária. Por isso, a queda em combate desses quadros, comandantes e combatentes foi amplamente homenageada em múltiplas ações dentro e fora da Turquia.26
O importante: aprofundar a luta
O Partido definiu em seu Primeiro Congresso o problema principal do período seguinte:
“Nosso Partido identificou que a questão principal é a organização, expansão, aprimoramento e fortalecimento do Partido para ampliar a guerra. Cumprir como Partido e como uma organização combativa e militante foi determinado como uma orientação essencial.”27
Para resolver isso, o Partido decidiu fortalecer o trabalho de massas através da Guerra Popular, desenvolvendo dialeticamente sua concatenação.
Os novos avanços na construção do Partido se dão precisamente por meio da Guerra Popular, reafirmando o caminho trilhado no campo e agora também nas cidades. Desenvolver a mobilização política das massas para a defesa e conquista de direitos por meio de organizações abertas e fechadas é uma orientação deste Primeiro Congresso, a fim de vincular a luta das massas com a luta armada revolucionária. Como resultado disso, o TIKKO realizou ações em cidades como Istambul na forma de propaganda armada, ataques ou sabotagem contra instalações estratégicas, contando com o apoio das massas. Antes do Congresso, a guerrilha realizava ações somente no campo, enquanto as cidades eram palco apenas de lutas econômicas ou políticas. Essa aplicação da Guerra Popular unitária – campo-cidade e cidade-campo – serve ao desenvolvimento da luta armada revolucionária e coloca novas tarefas a serem resolvidas no futuro, como a formação de bases de apoio e a questão da Frente-Novo Estado.
Outra conquista do Primeiro Congresso foi a subordinação de todas as organizações de massas aos interesses superiores da luta armada revolucionária. A organização partidária da juventude, a TMLGB,28 está criando organizações e unidades militares na cidade e no campo, organizando as massas jovens nesses organismos.
Alguns exemplos das ações armadas nas cidades incluem:
- Em 15 de janeiro de 2022, um grupo de militantes pendurou uma faixa, no distrito de Küçükçekmece, em Istambul, em homenagem aos camaradas assassinados. A faixa foi reforçada com explosivos da guerrilha.
- Em 4 de fevereiro de 2022, um grupo do TIKKO bloqueou uma rua em Istambul com bombas incendiárias, colocando uma faixa com a consigna “Honra aos nossos 50 anos de luta, TKP/ML – TIKKO”. Essa ação fez parte da campanha pelo 50º aniversário do Partido.
- Em 24 de março de 2023, um grupo de militantes do TKP/ML realizou um ataque contra a polícia no bairro de Gülsuyu, em Istambul. O grupo bloqueou a rua e pendurou uma faixa antes de lançar uma bomba na delegacia. A ação guerrilheira foi uma resposta à brutalidade policial contra o povo.29
Outras ações foram realizadas exitosamente, fortalecendo a confiança das massas no Exército de Libertação de Operários e Camponeses da Turquia, dirigido pelo TKP/ML, como a força necessária para levar adiante a revolução.
A luta armada nas cidades e a subordinação das organizações democráticas ao desenvolvimento da revolução são dois pontos fundamentais decididos no Congresso, permitindo avançar a linha do Partido e a Guerra Popular. O resultado é o triunfo da esquerda, que se reflete em todo o trabalho partidário, incluindo a guerrilha e a luta de massas.
Essa é apenas uma breve visão das importantes decisões do Primeiro Congresso, mas confirma seu significado e peso histórico.
A ascensão da luta
Vivemos na era do imperialismo e das revoluções proletárias. Mais ainda, estamos na etapa ofensiva da revolução proletária mundial, o que se expressa nos crescentes levantes de massas ao redor do mundo, no desenvolvimento das lutas de libertação nacional e das guerras populares em curso, às quais se somarão outras mais.
Isso determina a tática que a vanguarda do proletariado deve assumir em cada país diante da farsa eleitoral burguesa. Alguns partidos, desgastados pelo peso de décadas de práticas pacifistas, geraram verdadeiros montes de lixo, como a “acumulação pacífica de forças”, e caíram em posições de direita, chamando a “utilizar” as eleições da burguesia como uma “forma de luta”, subordinando o proletariado a um ou outro partideco ou candidato do regime.
Diante do cenário eleitoral, os Partidos Comunistas marxistas-leninistas-maoistas bem entendem que a única tática correta é participar conclamando à ruptura com o regime, denunciando sua decomposição, agudizando a contradição entre as massas e o velho Estado e educando o povo na violência revolucionária, preparando-o para os grandes combates vindouros. Isso significa convocar o boicote ao circo eleitoral da grande burguesia, tanto nos países desenvolvidos quanto nos países oprimidos. Essa é uma importante linha de demarcação entre comunistas e oportunistas de todos os matizes.
O TKP/ML é o Partido do grande camarada Ibrahim Kaypakkaya e compreende isso perfeitamente. Por isso, em 2023, o Partido desenvolveu uma intensa campanha de boicote contra as eleições burguesas na Turquia. Durante essa campanha, o Partido denunciou os crimes do velho Estado e de todos os partidos da grande burguesia contra o povo. Nenhum deles foi capaz de resolver os problemas das massas – apenas os administram – e, por esse motivo, não há razões para acreditar em seu espetáculo nem em suas falsas promessas. O Partido realizou uma grande jornada de agitação e propaganda, convocando o povo a não votar e a boicotar as eleições. Com panfletos, manifestações e música, propagou essa ideia, assumindo os custos que isso representou.
Não é demais sublinhar que apenas o TKP/ML manteve uma posição firme sobre essa questão, pois, como apontamos, outros partidos ou organizações, como o MLKP e o PKK, servem ao velho Estado a partir de sua plataforma eleitoral, o HDP,30 como provedores de votos e legitimadores das eleições burguesas, convalidando os resultados destas em favor do fascista Recep Erdoğan.
Os tiranos observam as atividades do Partido e aprofundam sua campanha contrarrevolucionária, não apenas contra a guerrilha, mas também contra a liberdade de imprensa e expressão, como se documentou no decorrer da campanha de boicote. O regime realizou batidas policiais e buscas ilegais, além das mais recentes detenções arbitrárias de leitores e ativistas de publicações como Partizan, Yeni Demokrasi e Associação Munzur Ambiental. Alguns deles permanecem encarcerados em prisões de segurança máxima em meio a arranjos jurídicos.31
Nada disso intimida o Partido, que sustenta firmemente a grande bandeira legada pelo camarada Ibrahim Kaypakkaya, que tem sido erguida pelos quadros, massas e combatentes que lutam sob o mando e guia da vanguarda do proletariado turco.
Como observamos acima, o TKP/ML foi parte fundamental dos Partidos e Organizações que, em meio à Conferência Internacional Maoista Unificada, deram vida à Liga Comunista Internacional. A fundação da LCI é um grande passo adiante no processo de unificação dos comunistas no mundo, e é importante destacar que dois Partidos Comunistas que dirigem e desenvolvem guerras populares, o TKP/ML e o Partido Comunista do Peru, são fundadores da nova organização internacional do proletariado.
Que essas páginas sirvam para render homenagem ao camarada Ibrahim Kaypakkaya e todos aqueles comunistas, homens e mulheres, que deram sua vida pelo Partido da classe operária e pela revolução na Turquia. O TKP/ML e seu exército guerrilheiro, o TIKKO, são um baluarte da revolução proletária mundial. O estudo e a reivindicação de sua luta devem ser amplamente difundidos entre os trabalhadores e os povos do mundo, unificando sua voz em um único grito de guerra: Proletários de todos os países, uni-vos!
Yasasin Partisi TKP/ML, Halkondusi TIKKO, TMLGB!
Viva o nosso Partido TKP/ML, e sob sua direção o TIKKO e a TMLGB!
1 Kemal Atatürk, fundador do Estado turco moderno, sua política era nacionalista e reacionária, seus pensamentos são a base do fascismo na Turquia.
2 Os clubes de debate foram muito populares no movimento estudantil e faziam parte de uma federação. Em seu primeiro Congresso, Kaypakkaya iniciou a luta de duas linhas contra as posições pacifistas e reformistas em seu interior.
3 Revista de esquerda turca. Naquela época, foi uma publicação importante de caráter progressista.
4 Partido Revolucionário dos Operários e Camponeses da Turquia.
5 Dersim, hoje Tunceli (punho de bronze), é uma cidade/região no norte da Turquia e parte da área curda. Em 1938, após um levante curdo nessa região, o exército reacionário assassinou 50 mil curdos e deu a ela o nome de “Tunceli”.
6 Exército de Libertação do Povo Turco.
7 Exército de Libertação dos Trabalhadores e Camponeses da Turquia,
8 Primeiro falecido do TKP/ML, considerado um herói da revolução e do povo turco.
9 TKP/ML, “A estratégia da ‘Guerra de Baixa Intensidade’”, 1998. A tradução no presente artigo é nossa.
10 Millî İstihbarat Teşkilatı – “Organização Nacional de Inteligência”, Serviço de Inteligência ou polícia política do Estado turco.
11 Milliyetçi Hareket Partisi – “Partido do Movimento Nacionalista” é um partido fascista na Turquia, atualmente parte do governo.
12 Prefácio do TKP/ML de “A questão curda na Turquia”, edição de 1991. A tradução no presente artigo é nossa.
13 TKP/ML, “A estratégia da ‘Guerra de Baixa Intensidade’”, 1998, tradução nossa.
14 TMLGB: União da Juventude Marxista-Leninista da Turquia.
15 Trata-se de um importante dirigente do Partido que tombou em 2020 em uma operação de guerra. Falaremos mais sobre isso na quarta parte deste ensaio.
16 Maoist Komünist Partisi – Partido Comunista Maoista.
17 TKP/ML, “3º Congresso do MKP – Novo estágio no liquidacionismo”, 2015, tradução nossa.
18 HBDH – Halkların Birleşik Devrim Hareketi, Movimento Revolucionário Unificado do Povo.
19 Ver Notas sobre a História do TKP/ML II – O período posterior ao assassinato de Ibrahim Kaypakkaya e o desenvolvimento do Partido.
20 Partido Marxista-Leninista Comunista da Turquia e Curdistão.
21PKK – Partiya Karkerên Kurdistan, Partido dos Trabalhadores do Curdistão.
22 Energy Terminal, “Acordo entre empresa petrolífera dos EUA e YPG/PKK é ilegal: especialistas”, 2020.
23 MLPD – Marxistisch-Leninistsche Partei Deutschlands, ou Partido Marxista-Leninista da Alemanha. Um partido burguês e eleitoreiro.
24 ICOR – International Coordination of Revolutionary Parties and Organizations, Coordenação Internacional dos Partidos e Organizações Revolucionárias.
25 Ver a terceira parte (III – A divisão do Partido e os capituladores do TKP-ML), onde se aborda o problema da fração liquidacionista.
26 Comando Regional de Dersim. TKP/ML TIKKO. “Suas trincheiras não ficarão vazias, suas armas não se calarão. Venceremos com eles! Os camaradas Nubar, Özgür, Rosa e Asim são imortais!”. Comunicado. Outubro de 2020.
27 Documentos do 1º Congresso do TKP/ML. Versão em inglês disponível na página da Internacional Comunista.
28 TMLGB: União da Juventude Marxista-Leninista da Turquia.
29 O Arauto Vermelho, “TKP/ML realiza um ataque com bomba contra a polícia em Gülsuyu, Turquia”, 2023.
30 Partido Democrático Popular (HDP); uma plataforma eleitoral que desenvolve o programa do PKK.
31 Mais informações sobre o assunto no Periódico Mural: “Turquia, onda de repressão”, “Turquia: Audiência contra os companheiros detidos”.