Nota do blog: Apresentamos abaixo tradução não oficial da brochura “Juan Segundo Leiva Tapia – Empunha a bandeira vermelha da revolução”, de autoria do Centro de Investigação Popular Juan Segundo Leiva, do Chile, e por Ediciones Leftraru em 2014. O documento trata sobre a vida e a luta do dirigente comunista Juan Segundo Leiva Tapia, professor que organizou operários e camponeses e dirigiu o Levantamento de Ránquil em junho de 1934, fato transcendental da luta de classes no Chile e da história do proletariado e povo chileno, que completa seu 91º aniversário este ano.
Ano passado, a Prensa Chipiriko, mídia independente da província de Curicó, região de Maule, Chile, republicou a brochura e explicou em nota que o Levantamento de Ránquil “não pode ser compreendido se não for interpretado à luz do marxismo-leninismo-maoismo. Isto é transcendental, já que o oportunismo e a reação catalogam os feitos como ‘massacre’ ou ‘tragédia’, ao mesmo tempo que negam ou escondem a participação comunista que, precisamente, foi encarnada pelo dirigente mais importante e reconhecido daquele que é atualmente o episódio mais elevado na história da luta de classes do nosso país”.

Proletários e povos oprimidos do mundo, uni-vos!
Juan Segundo Leiva Tapia
Empunha a bandeira vermelha da revolução
Centro de Investigação Popular Juan Segundo Leiva
(2014)
Apresentação
Esta brochura é uma primeira aproximação à biografia de Juan Segundo Leiva Tapia, comunista, professor, organizador do campesinato pobre mapuche e chileno. Revolucionário que dirigiu o Levantamento de Ránquil de 1934. Este é o fato mais importante da luta de classes de nosso povo, no qual se materializa a aliança operário-camponesa no caminho da Revolução Democrática.
É importante notar que a camarilha revisionista – falsos comunistas – que se apodera da condução do Partido Comunista do Chile (PCCh) desde meados da década de 1930 e, quase sem contrapeso, no final da década de 1950, difundiu uma história falsa sobre os acontecimentos de Ránquil, negando a direção do Partido Comunista (PC), e sobretudo ocultando aqueles que encarnavam a linha vermelha dentro do PC e que lutavam pela Revolução Agrária Anti-imperialista, linha que foi encarnada precisamente por comunistas como Juan Leiva Tapia.
Este é um primeiro aporte no caminho para conhecer e compreender esta luta, principalmente para que atuais revolucionários se enriqueçam com a luta de operários e camponeses, que não hesitaram em entregar o seu precioso sangue neste caminho, dedicação que nos enche de convicção e força.

Origens
Juan Segundo Leiva Tapia nasceu em 30 de junho de 1897 no povoado de Chos Malal, província de Neuquén, Argentina. Anos mais tarde diria: “mas sou chileno por sangue e vizinhança”.
Desde que o tratado de fronteiras com a Argentina foi assinado em 1881, e a linha dos mais altos cumes – da Cordilheira dos Andes – e a bacia hidrográfica foram definidas como critério de delimitação fronteiriça, o vale de Lonquimay foi o único local situado ao leste dos Andes que permaneceu em território chileno, e posteriormente os habitantes locais foram convidados a escolher a qual país seriam repatriados. Entre 1896 e 1898, no Chile, foram emitidos decretos que instalaram os novos colonos. É neste contexto que os pais de Juan Leiva Tapia entraram no Chile em 1905, pelo desfiladeiro do vale de Lonquimay, no Alto Bio-Bio. Presume-se que tenham morrido quando ele ainda era criança, deixando-o aos cuidados de dona Candelaria Ramos, a quem reconheceu como sua mãe legítima. Casou-se com Valentina Muñoz Sáez, com quem teve dois filhos, Renalda e Juan Lenín. Em algumas fontes históricas o nome Rúben aparece no lugar de Renalda.

Seus estudos
Mudou-se para Santiago e em 1913 ingressou para estudar espanhol no Instituto Pedagógico da Universidade do Chile (hoje UMCE), onde se formou em 1917, como é constatado nos livros de Atas da referida universidade. Elías Lafertte, secretário da Federação Operária do Chile (FOCH) no período dos acontecimentos de Ránquil, comenta em suas memórias que também foi professor de francês, o que exemplifica com as conversas que Juan Leiva teve com uma professora de francês em uma viagem que Lafertte e Leiva fazem juntos e que relataremos mais adiante. Outro depoimento é o do dono de mercearia Harry Fahrenkrog, funcionário de Bruno Ackerman, comerciante alemão que fazia parte da ala direita do Sindicato Agrícola de Lonquimay e contemporâneo dos acontecimentos, que relata sobre Juan Leiva: “Quando cursava o 2o ano [do curso de Direito], seu espírito inquieto e sua inclinação à rebelião levaram-no a participar de uma greve estudantil, pela qual foi expulso da Universidade. Estabeleceu-se na cidade de Victoria como professor do ensino primário e, ao mesmo tempo, defendia casos nos tribunais de justiça (…). Seguiu militando no Partido Comunista, como já havia feito nos tempos de estudante”.

Sindicato Agrícola de Lonquimay
Em 30 de abril de 1928, Juan Leiva funda o Sindicato Agrícola de Lonquimay, permanecendo como Secretário-Geral, o que nos dá um exemplo do reconhecimento que tinha entre os camponeses pobres e residentes associados ao sindicato, que viviam constantemente assediados pelas ambições dos latifundiários em roubarem suas terras. Conta-se que neste trabalho foi ajudado pelo operário de Lota, Máximo Alarcón, que pertencia à FOCH, organismo classista dos trabalhadores dirigido pelo PC. Juan Leiva é encarregado pelo sindicato de defender as demandas mais sentidas dos moradores e seus filhos no vale de Lonquimay, resumidas pelo sindicato na consigna: Povoar, produzir, civilizar! Leiva Tapia faz esta defesa perante muitas instâncias, chegando inclusive à autoridade máxima do velho Estado, o Presidente da República. Foi assim que, em 20 de novembro de 1928, Juan Leiva se encontrou com Carlos Ibáñez del Campo, lacaio do imperialismo ianque que governava nosso país naquela época. Este se compromete com as demandas do sindicato: terra, crédito para compra de gado e escolas. Mas era impossível que o aprendiz de fascista Ibáñez del Campo pudesse resolver o problema da terra, nem no Chile, nem em Lonquimay, pois servia aos seus patronos do imperialismo e as classes dominantes nacionais.
Nesta data, no jornal local El Comercio de Curacautín, aparecem artigos publicados por Leiva Tapia, na qualidade de professor e dirigente sindical, onde denuncia os abusos dos latifundiários, o contrabando de gado da Argentina, o constante ataque aos sócios do sindicato, e defende a organização sindical e a criação de escolas.
Em 1929, em uma entrevista à imprensa local onde fala da importância da organização camponesa, assinala: “Belo dia, não muito longe para os chilenos, em que toda a nossa organização social, econômica, política e administrativa se assente sobre a base sólida da organização social!”.
Em julho de 1932, o Sindicato Agrícola de Lonquimay, no esforço de defender suas justas demandas pela terra e pelas condições de vida das massas de Lonquimay, une-se a outras organizações locais da região, criando o Conselho Social Operário de Curacautín, e neste é Juan Leiva quem é designado secretário-geral do nascente organismo, o que reflete o peso do sindicato e de Leiva na região.
Retomando o relato de Lafertte, ele assinala que conheceu Juan Segundo Leiva no Congresso da FOCH de fevereiro de 1933, realizado no Sindicato de Motoristas na Rua Cuming. Conta nas suas memórias que entre os delegados provinciais presentes: “ergueu-se com relevos impressionantes a figura de Juan Segundo Leiva Tapia… embora se vestisse como seus companheiros de trabalho, botas de montaria, casaco curto e manta castelhana, era um homem culto que argumentava admiravelmente e falava com lógica e ao mesmo tempo com paixão… comovido pela miséria dos camponeses, dedicou a eles sua vida, a organizá-los, a levantá-los e, para esta tarefa, fez o que deve fazer um lutador, identificou-se plenamente com os camponeses pobres, tornou-se um deles”.
A segunda vez que o viu foi nesse mesmo ano, na reunião do Comitê Antiguerra que teve lugar nas instalações da Federação de Professores, organismo classista dos professores do PC. Juan Leiva fez parte da delegação elegida para ir a uma Conferência em Montevidéu, Uruguai. Lafertte conta que, após a reunião, retornou a Lonquimay e cruzou a cordilheira pelo Sul, chegando à sede do PC em Buenos Aires, Argentina, onde se encontrou com o restante da delegação. Todos juntos chegaram à pequena cidade de El Carmelo, na margem uruguaia do Rio da Prata, quando foram presos, passaram 20 dias na prisão de Montevidéu e foi dada a ordem de deportação. No dia 1o de maio de 1933, no qual se comemorava o dia internacional dos trabalhadores, passaram o dia em um calabouço de um barco inglês que os trazia ao Chile, todavia, o cárcere não os impediu de cantar A Internacional, somando-se ao canto de um operário grego que também estava detido no referido navio. Ao chegarem a Punta Arenas, Juan Segundo Leiva foi deportado ao porto de Melinka, no Arquipélago das Guaytecas, atualmente pertencente à província de Aysén.

Após 5 meses, em novembro de 1933, retornou a Curacautín e foi entrevistado pelo jornal local na qualidade de líder camponês. Depois de ser preso, não demonstra vacilação, pelo contrário, explica seu ingresso à FOCH da seguinte maneira: “o ingresso do Sindicato Agrícola de Lonquimay à FOCH e a minha participação na diretiva é uma justa e legítima aliança entre camponeses e operários para se defenderem desses dois poderosos aliados que estrangulam os trabalhadores da cidade e do campo: o capitalismo estrangeiro (ianque, inglês, japonês, alemão, etc.) e o latifúndio feudal-burguês”. Acrescenta: “a FOCH respeita e defenderá os interesses do camponês, do operário, dos pequenos ocupantes e colonos e do proprietário pobre, médio e até mesmo rico que administra e cultiva a sua propriedade, desde que não seja um inimigo da transformação econômica ou esteja com o latifundiário feudal para combater a organização dos trabalhadores da cidade e do campo. Além disso, a FOCH aspira à união e fraternidade de operários e camponeses para dar ao país sua verdadeira independência, a independência econômica, libertando-o dos imperialismos estrangeiros que, em estreita aliança com os senhores latifundiários, sufocam toda iniciativa e prosperidade, reduzindo o povo à fome e à escravidão. Por isso dizemos com cabeça erguida e serena que a união operária e camponesa que impulsionamos é uma revolução nacional libertadora”. E embora nesta entrevista planteie que essa transformação poderia ser levada a cabo sem armas, é enfático ao salientar que: “toda colonização promovida pelos governos do imperialismo feudal-burguês, sejam eles liberais, conservadores, fingindo ser socialistas, mas, na verdade, amarelos, etc., não será um engano para a classe operária. Um meio de silenciar momentaneamente as lamentações do homem e seguir explorando os desafortunados”. Esta entrevista expressa os debates que se davam no seio do Movimento Comunista Internacional (MCI) e, ao mesmo tempo, expressa a justa e correta posição de classe que guia Juan Leiva em seus propósitos.
Irrompe o Levantamento
Um ano depois, nos primeiros meses de 1934, os históricos antagonismos de classe agudizaram-se em Lonquimay. A opressão latifundiária protegida pelo velho Estado, que durante décadas caiu pesadamente sobre os ombros do campesinato pobre mapuche, pehuenche e chileno, trabalhadores e residentes, irrompeu na propriedade ou hijuela [N.T.: propriedade rural que se forma a partir da divisão de outra maior] Ránquil, na região de Lonquimay.

Segundo o Arquivo Nacional, a hijuela de Ránquil fazia parte de um latifúndio denominado San Ignacio de Pemehue, com cerca de 132.000 hectares. Por decreto, a família Puelma Castillo foi reconhecida como proprietária de 139.362 hectares localizados no Alto Bio-Bio, incluindo 4.000 hectares de terras públicas, que anteriormente tinham sido entregues aos colonos e camponeses da região.
Todos os esforços do Sindicato Agrícola de Lonquimay, incluindo a entrevista de Juan Leiva com o presidente, procuraram reverter esta desapropriação que usava a legalidade em favor dos ricos. Mas depois que Arturo Alessandri assumiu a presidência, aprofundou uma política favorável aos interesses de grandes latifundiários como Puelma e Bunster. Foi assim que o velho Estado decretou favorecê-los com a entrega de 30.000 hectares de terras públicas e, por outro lado, esta ação judicial serviu de base para que os camponeses da região fossem considerados “ocupantes ilegais” das terras e, ademais, solicitou seu despejo definitivo.
Sendo essa a gota d’água que fez transbordar o copo, diz-se que, com velhas espingardas, paus e ferramentas, as massas camponesas se levantam em rebelião, à qual se somam operários e trabalhadores fartos da miséria, que viram nos homens da terra os seus próprios irmãos.
Para poder dirigir as massas à luta, Juan Leiva teve que expulsar do Sindicato Agrícola de Lonquimay aqueles que pretendiam seguir o caminho burocrático.
Finalmente, foi no dia 27 de junho de 1934 que as massas camponesas e operárias atacaram os latifundiários e grandes burgueses, e enfrentaram a repressão do velho Estado, eliminando alguns policiais. As classes dominantes tremeram de medo, apontando que uma “Rebelião Soviética” havia eclodido em La Araucanía, entre outros adjetivos. O grito de guerra que incendiou a pradaria da luta de classes desde Ránquil era um perigo para a grande burguesia e os latifundiários.

Juan Leiva Tapia dirige política e militarmente o levantamento e nele entrega a sua vida. Durou vários dias e, embora as fontes não coincidam em números, estima-se que centenas de pessoas se somaram. As escaramuças ocorreram em diversos pontos, como em Nitrito e na Ponte de Ránquil, onde as heroicas massas enfrentaram membros dos Carabineiros [N.T.: força policial do Chile], que contavam com o apoio da Guarda Civil de Lonquimay e milícias republicanas organizadas pelo governo. O terror das classes dominantes era tão grande que foi a primeira vez que um avião sobrevoou a zona do Alto Bio-Bio. Oficialmente, contabilizaram-se 61 detidos e uma centena de mortos. A justiça absolveu os fardados e policiais genocidas por meio de uma Lei de Anistia e apenas civis foram condenados.
A repressão sanguinária identificou os dirigentes do movimento desde o início, voltando toda a sua fúria contra eles. Juan Leiva foi morto perto de Llanquén no vale de Lonquimay.
Em um jornal do Comitê Regional do Socorro Vermelho Internacional, impulsionado pela Internacional Comunista para a defesa dos combatentes, relata-se: “Juan Leiva Tapia foi encontrado dormindo em sua própria casa, flagelaram-no barbaramente, depois amarraram seu braço nas costas de um cavalo que o levou trotando atravessando o rio Ránquil, chegando com ele à margem do Llanquén, onde foi barbaramente assassinado, torturando-o, até seu último suspiro”.
Juan Segundo Leiva Tapia ergueu alto a bandeira da Revolução Agrária Anti-imperialista, tal como o MCI já compreendia desde então, como o único caminho para a emancipação dos países semicoloniais e semifeudais. Ao mesmo tempo, a linha oportunista de direita no interior do MCI lutava para orientar os Partidos Comunistas ao caminho da colaboração de classes, conduzindo-os pelo pântano eleitoreiro, pela mão da política oportunista que tergiversou o uso das frentes populares, o que em definitivo levou ao colapso do PC, pondo-o de joelhos diante de seus inimigos.
Juan Leiva foi um revolucionário que, na luta de duas linhas que se desenvolvia no PC neste período, encarnou na prática a linha vermelha ao dirigir as massas à luta, à defesa dos direitos usurpados com armas nas mãos, aos camponeses e operários, contra o latifúndio, os grandes burgueses e imperialistas.
Em meados da década de 1930, Juan Leiva Tapia atuou como um integrante a mais desse exército de homens e mulheres que avançava a nível mundial contra o fascismo e toda a opressão, empunhando as bandeiras vermelhas que se plasmaram com a Revolução Russa e que com a Revolução Chinesa alcançariam o seu maior triunfo.
Sem dúvida, a posição de classe, a paixão, a luta, a entrega, a alegria e a fúria que moveram Leiva Tapia aninham-se nos corações e mentes dos revolucionários que hoje decidem dar a vida dia após dia para retomar o caminho que os combatentes de Ránquil concretizaram em 27 de junho de 1934.

Viva os 90 anos do Levantamento de Ránquil!
Retomar a Recabarren, reconstituir seu Partido e desenvolver o caminho de Ránquil!
Abaixo o oportunismo, o revisionismo e o imperialismo!
A rebelião se justifica!

