Índia: Charu Mazumdar sobre a heroicidade comunista (I)
Nota do blog: Em memória do Camarada Basavaraj, Secretário-Geral do Partido Comunista da Índia (Maoista) caído em combate em 21 de maio último, e por ocasião do Dia da Heroicidade, publicamos tradução inédita (não oficial) de dois textos do chefe comunista indiano Charu Mazumdar sobre a heroicidade comunista.
Mazumdar foi o principal dirigente da fração vermelha que combateu os revisionistas que encabeçavam o “Partido Comunista da Índia (PCI)” e, posteriormente, o “PCI (Marxista)”, fundando sobre os alicerces da luta armada camponesa de Naxalbari e com base no marxismo-leninismo-pensamento maotsetung o Partido Comunista da Índia (Marxista-Leninista), em 22 de abril de 1969. Conforme aponta o Camarada Basavaraj:
“Milhares de camaradas deram suas valiosas vidas pela grande causa de realizar a Revolução de Nova Democracia na Índia, como parte da Revolução Socialista Mundial. As forças revolucionárias genuínas… lutaram contra as linhas errôneas, oportunistas de direita e revisionistas da direção que conduzia o PCI, contra suas facadas nas costas e, mais tarde, contra o revisionismo moderno do PCI (Marxista)… Sob influência direta desse processo [o Grande Debate e a GRCP]… sustentaram o marxismo-leninismo-pensamento maotsetung (hoje maoismo)… A grande rebelião de Naxalbari, ocorrida em maio de 1967 sob a direção do Camarada Charu Mazumdar, foi a abertura do ‘Trovão da Primavera na Índia’… Não apenas desmascarou o revisionismo contundentemente e rompeu com ele de maneira definitiva, mas, pela primeira vez, firmou-se como símbolo da aplicação consciente do luminoso caminho da conquista do poder político por meio da Guerra Popular Prolongada…”
Entrevista a Alf Brennan de Avani News
Camarada Basavaraj, 2022
Como milhares de mártires da Revolução Indiana e heróis e heroínas do proletariado e povo indianos, dentre os quais o Camarada Basavaraj, o Camarada Charu Mazumdar tombou em combate no dia 28 de julho de 1972.
“Ao aderir à via parlamentar, revolucionários do mundo inteiro permitiram que se acumulasse, ao longo dos tempos, uma formidável dívida de sangue. Chegou a hora de saldar essa dívida. Centenas de milhares de mártires tombados conclamam os revolucionários: ‘Destruam o imperialismo e varram-no da face da Terra!’ É hora de reconstruir o mundo de uma nova maneira! Nossa vitória nesta luta é certa!”
“Boicotar as Eleições!” – O significado internacional da palavra de ordem
Charu Mazumdar, 1968

Vingar os heroicos mártires
Charu Mazumdar
1970
Apelo do Camarada Charu Mazumdar em nome do Partido Comunista da Índia (Marxista-Leninista):
A polícia assassinou onze jovens revolucionários e deixou seus corpos jogados à beira da estrada, próximo a Barasat [no distrito de 24 Parganas, Bengala Ocidental]. Há vários meses a polícia vem matando jovens revolucionários dessa mesma forma. A polícia do nosso país, treinada por estrangeiros, sempre foi usada como instrumento para assassinar e reprimir o povo. Apesar do fim do domínio direto dos britânicos, é em Scotland Yard que os chefes de polícia ainda recebem treinamento – ou seja, aprendem as táticas de como preservar o jugo colonial. Não foi só agora que cometeram esses assassinatos: não se passou um ano sequer sem que essa força policial não tenha matado a tiros nossos compatriotas desarmados. Em 1959, quando camponeses vieram de suas aldeias a Calcutá para se encontrar com ministros, essa força policial espancou até a morte oitenta camponeses desarmados em um único dia. Até em campos esportivos os vemos no papel de assassinos: espancam até a morte mesmo espectadores em partidas de críquete. É assim que são treinados para matar. A força policial do nosso país é, portanto, uma ferramenta nas mãos dos imperialistas para manter o jugo colonial. Esses não são indianos: esses não pertencem à Índia.
O incidente em Barasat mostra claramente quão isolados do povo estão esses assassinos e quão apavorados, em pânico, eles se encontram. Eles não tiveram coragem de enfrentar esses jovens nem mesmo depois de amarrarem suas mãos. É por isso que os assassinos dispararam cinco ou seis tiros em cada um desses jovens e os mataram um a um. Esse bando de covardes sabe que aqueles que estão matando hoje são filhos imortais da Índia – dignos do respeito de todos os países, de todas as nações. É por isso que os covardes assassinaram esses jovens, que não temiam a morte, na escuridão da noite e deixaram seus corpos à beira da estrada.
Nenhum dos partidos políticos que hoje travam entre si uma briga de foice por cargos ministeriais, derramando lágrimas de crocodilo pelos mártires e tentando explorar esses assassinatos na disputa por votos, pode se eximir da responsabilidade por essas mortes. As mãos de cada um deles estão manchadas com o sangue dos mártires. Todos fornecem argumentos políticos para justificar o assassinato dos revolucionários e secretamente fornecem à polícia informações sobre o paradeiro deles.
Hoje, a tarefa mais sagrada de todo indiano é despertar o mais profundo ódio contra todos esses covardes, cães de fila do imperialismo e assassinos. Essa é hoje a exigência dos nossos compatriotas – a reivindicação do patriotismo.
Todo quadro revolucionário deve assumir o compromisso de vingar os heroicos mártires. Esses carniceiros são inimigos do povo, inimigos do progresso e lacaios dos estrangeiros. O povo indiano não será libertado enquanto esses carniceiros não forem liquidados.
Liberation v. 3, n.º 11-12, v. 4, n.º 1-2, setembro-dezembro de 1970.
Em memória dos mártires
Charu Mazumdar
26 de agosto de 1971
À meia-noite entre os dias 4 e 5 de agosto, a polícia capturou o Camarada Saroj Dutta e, naquela mesma noite, secretamente o executou a tiros.
O Presidente Mao disse: “Não é difícil praticar um pouco de bondade. Difícil é fazer o bem por toda a vida e jamais fazer o mal, agir constantemente no interesse das amplas massas, dos jovens e da revolução, e engajar-se numa luta árdua durante décadas a fio. Isso sim é o mais difícil de tudo!” O Camarada Saroj Dutta foi exatamente esse tipo de camarada, e toda a sua vida foi dedicada à revolução. Não houve força reacionária que não temesse sua caneta, que era tão afiada quanto uma navalha. Por isso mesmo, a polícia não ousou sequer encenar a farsa de um julgamento: assassinou-o naquela mesma noite.
Como todas as forças reacionárias do mundo, o governo indiano e seus cúmplices – todos os partidos reacionários e revisionistas – querem deter a marcha da revolução recorrendo a assassinatos em massa em larga escala. Na região de Cossipore e Baranagar, eles se uniram em uma conspiração e assassinaram mais de uma centena de jovens. A polícia e os goondas (mercenários) que executaram os assassinatos foram contratados para esse fim por todos esses canalhas que, em nome da restauração “da Lei e da Ordem”, realizavam conferências com o objetivo de preservar esse sistema devorador de vidas humanas e se unir contra os revolucionários. Hoje, quando suas máscaras estão caindo diante do povo, quando já não é difícil para as massas reconhecer as mãos ensanguentadas dos assassinos, eles vêm a público demonstrar simpatia pelos jovens revolucionários assassinados com o intuito de esconder sua monstruosidade. Eles executaram a mesma conspiração em Barasat e Uttarpara. A orgia de assassinatos que promoveram na região de Cossipore e Baranagar superou todos os registros anteriores de seus atos demoníacos.
Também nas prisões eles vêm matando quadros revolucionários, abrindo fogo contra os prisioneiros ou agredindo-os com lathis (bastões de madeira). Pensam que, agindo assim, poderão deter o avanço da revolução. No Vietnã do Sul, a camarilha de Diem tentou deter a marcha da revolução recorrendo a assassinatos dessa natureza. O resultado foi que a Frente Nacional de Libertação se fortaleceu e derrotou repetidamente os agressores norte-americanos. Na Índia, essa matança despertará a fúria e o ódio do povo, e uma nova Índia será construída sobre as ruínas desse sistema assassino – essa é a lei da história. Os reacionários terão de pagar com seu próprio sangue a dívida de sangue que cresce a cada assassinato que cometem.
O Camarada Saroj Dutta foi um dirigente do Partido e teve uma morte heroica, digna de um dirigente. Sua firmeza revolucionária deve servir de exemplo para a juventude. Superando todas as fraquezas, os jovens devem trilhar mais resolutamente o caminho da revolução e vingar esses assassinatos, integrando-se aos operários e aos camponeses pobres e sem terra.
Liberation v. 5, n.º 1, julho de 1971 – janeiro de 1972.

Homenagem ao Camarada Saroj Dutta e outros mártires
Liberation presta homenagem a todos os mártires que deram suas vidas à causa da revolução durante os últimos meses.
Entre eles estava o Camarada Saroj Dutta, membro do Birô Político do Comitê Central do Partido Comunista da Índia (Marxista-Leninista) e Secretário do Comitê Estatal de Bengala Ocidental. Ele teve uma vida e alma de “Deshabrati”, o órgão bengali do Partido.
Ele desempenhou um grande papel na propagação do pensamento maotsetung e da linha revolucionária do Camarada Charu Mazumdar, bem como na luta contra o revisionismo há muito entrincheirado no movimento comunista na Índia. Também teve um papel dirigente na luta contra o revisionismo no seio do Partido e para consolidá-lo em torno da linha revolucionária do Camarada Charu Mazumdar. Foi pioneiro na luta contra o longo reinado das culturas compradora e feudal nesse país. Com sua poderosa caneta, o Camarada Saroj Dutta golpeou e desmascarou muitas fraudes e mentiras reacionárias e revisionistas cujo intuito era enganar o povo e reforçar seus grilhões. Os reacionários e revisionistas o temiam. Por conta disso, os cães da polícia o assassinaram na mesma noite em que puderam capturá-lo. Ele teve uma morte heroica digna de um dirigente.
O sangue dos mártires está fertilizando sementes de novos homens neste país. Assim como no Vietnã do Sul e em toda parte, a matança e perseguição dos revolucionários e doutras pessoas há de trazer em breve a ruína dos reacionários e seus amos.