A luta nas montanhas Tchincam* (Mao Tsetung, 1928)

25 de novembro de 1928

*Informe apresentado pelo camarada Mao Tsetung ao Comitê Central do Partido Comunista da China.

O ESTABELECIMENTO DO REGIME INDEPENDENTE NOS LIMITES ENTRE JUNAN E CHINAGSI E A DERROTA DE AGOSTO

 No mundo atual, China é o único país onde surgiu, em meio do cerco do regime branco, uma ou várias pequenas zonas sob o Poder vermelho. Ao analisar este fenômeno, encontramos que se deve, entre outras coisas, às incessantes escisiones e guerras dentro da burguesia compradora e a classe dos déspotas locais e shenshi malvados da China. Enquanto continuem estas escisiones e guerras, poderá subsistir e desenvolver-se o regime independente criado pelos operários e camponeses mediante a força armada. Sua subsistência e desenvolvimento requerem, além disso, as seguintes condições: 1) uma boa base de massas, 2) uma sólida organização do Partido, 3) um Exército Vermelho bastante forte, 4)um terreno favorável para as operações militares, e 5) recursos econômicos suficientes para o estabelecimento.

Frente às classes dominantes das regiões que o rodeiam, um regime independente deve adotar distintas estratégias segundo se Halle o Poder dessas classes em um período de estabilidade temporal ou em uma de ruptura. Quando se produz uma ruptura no seio das classes dominantes, com ocorreu com a guerra entre Li Tsung-yen e Tang Sheng-chi nas províncias de Jupei e Junán [1], e com a guerra entre Chang Fa-kui e Li Chi-shen na província de Kuangtung [2], podermos adotar uma estratégia de avanço mais ou menos audaz, e o território sob o regime independente pode estender-se, mediante operações militares, em proporções relativamente grandes.

Contudo, ainda então devemos nos preocupar de assentar cimentos sólidos nos setores principais de nosso território afim de ter algo seguro em que apoiarmos ao sobrevir o terror branco. Quando o regime das classes dominantes é relativamente estável, como ocorreu nas províncias do Sul desde abril deste ano, devemos adotar uma estratégia de avanço gradual. Em tal caso, o que deve-se evitar antes de tudo é, no terreno militar, dividir nossas forças para um avanço temerário e, no trabalho local (distribuição da terra, criação dos órgãos de Poder, ampliação das fileiras do Partido e organização de forças armadas locais), dispersar o pessoal e desatender a tarefa de echar cimentos sólidos nos setores principais. Muitas pequenas zonas vermelhas sofreram derrotas bem por falta de condições objetivas, ou bem, o plano subjetivo, a causa de uma tática errônea. Esta se deve exclusivamente a que não se tem sabido distinguir entre os períodos de estabilidade temporal e os de ruptura dentro do regime das classes dominantes. Em um período de estabilidade temporal do regime das classes dominantes, alguns camaradas advogaram por dividir as forças para um avanço temerário, e inclusive por deixar apenas a Guarda Vermelha na defesa de extensas zonas, como se desconhecessem por completo o inimigo, além de empregar as “milícias de casa por casa”, poderia concentrar tropas regulares para atacarnos. No que refere ao trabalho local, descuidaram totalmente da tarefa de assentar cimentos sólidos nos principais setores, e procuraram uma expansão desmensurada, sem considerar se isto estava dentro de nossa capacidade. Motejaban de “conservador” a todo aquele que se pronunciasse, no terreno militar, pela política de avanço gradual e, no trabalho local, por concentrar esforços em echar cimentos sólidos nos setores principais afim de assegurar uma posição invencível. Suas ideias errôneas foram causa fundamental da derrota sofrida em agosto deste ano na Região Fronteiriça de Junán-Chinagsí, assim como da derrota que sofreu esse mesmo no sul de Junán o 4. F Corpo do Exército Vermelho.

Nosso trabalho nos limites entre Junán e Chiangsí começou em outubro do ano passado. Nessa época, não ficava nenhuma dúvida das organizações do Partido nos diversos distritos. Enquanto às forças armadas locais, apenas subsistiam, nos arredores das montanhas Chingkang, o destacamenteo de Yuan Wen-tsai e do Wang Tsuo, cada um com sessenta fuzis em mau estado; os destacamentos camponeses de autodefesa dos distritos d eYungsin, Lienjua, Chaling e Lingsien haviam sido totalmente desarmados pela classes dos déspotas locais e shesnhi malvados,e o fervor revolucionário das massas havia sido afogado. Até fevereiro deste ano, se haviam estabelecido comitês distritais do Partido em Ningkang, Yung-sin, Chialing e Suichuan, e um comitê de território especial em Lingsien; em Lienjua começou a funcionar uma organização do Partido, a que conseguiu entrar em contato com o Comitê Distrital de Wanan. Em todos os distritos, exceto em Lingsien, haviam surgido algumas forças armadas locais. Nos distritos de Ningkang, Chaling, Suichuan e Yungsin, especialmente nos dois últimos, se haviam realizado, com resultados bastantes bons, numerosos levantamentos guerrilheiros orientados a derrubar os déspotas locais e shenshi malvados e mobilizar as massas. Por então, a revolução agrária ainda não se havia realizado com profundidade. Os órgãos de Poder se chamavam governos de operários, camponeses e soldados. No Exército, se haviam organizado comitês de soldados [3]. Quando as unidades militares saiam em missão em separado, se estabeleciam comitês de ação para dirigi-las. O organismo dirigente superior do Partido Provincial de Junán durante o Levantamento da Colheita de Outubro. No começo de março, a exigência do Comitê Especial do Sul de Junán, o Comitê de Frente dói reorganizado como Comitê de divisão (com Je Ting-ying como secretário), convertendo-se em um organismo encarregado de dirigir exclusivamente as organizações do Partido no Exército e sem nenhuma autoridade sobre as organizações locais do Partido. Simultaneamente, a exigência do Comitê Especial do sul de Junán, as tropas a mando de Mao Tsetung foram transladadas para essas zonas, com resultado do qual, a Região Fronteiriça foi ocupada pelo inimigo durante mais de um mês. No final de março, nossas tropas foram derrotadas no Sul de junán; em abril, as unidades de Chu Te e as de Mao Tsetung, assim como os destacamentos camponeses do Sul de Junán, se retiraram para a Ningkang e começaram a estabelecer de novo o regime independente na região fronteiriça.

A partir de abril, o regime independente nos limites entre Junán e Chiangsí vinha criando-se justamente em um período de estabilidade temporal do poder das classes dominantes no Sul; as tropas reacionárias que as províncias de Junán e Chiangsí enviavam a realizar operações de “aniquilamento” contra nós chegavam pelo menos oito ou nove regimentos, e inclusive dezoito.

Contudo, com um força inferior a quatro regimentos, lutamos contra o inimigo durante quatro longos meses, ampliando diariamente o território sob nosso regime independente, aprofundando a revolução agrária, estendendo o Poder popular e engrossando as fileiras do Exército Vermelho e da Guarda Vermelha. Tudo isto foi possível graças a correta política das organizações do Partido (local e no Exército) na Região Fronteiriça. A política do Comitê Especial da Região Fronteiriça (cujo secretário era Mao Tsetung) e do Comitê do Corpo do Exército (com Chen Yi como secretário) era então seguinte:

Lutar resolutamente contra o inimigo, estabelecer o Poder no setor central da cordilheira Luosiao e combater a tendência à dúvida;

Aprofundar a revolução agrária nas zonas sob o regime independente;

Desenvolver as organizações locais do Partido com a ajuda da organização do Partido no Exército e desenvolver as forças armadas locais com a ajuda do Exército;

Adotar uma tática ofensiva com respeito a Junán, onde o poderio das classes dominantes era relativamente grande, e uma tática ofensiva frente a Chinagsi, onde seu poderio era relativamente débil;

Dedicar grandes esforços ao desenvolvimento de nosso trabalho em Yungsin, criar ali um regime independente popular e preparar as condições para um luta prolongada;

Concentrar as unidades do Exército Vermelho para golperar, no momento oportuno, o inimigo que as enfrentara, e opor-se a divisão das forças afim de evitar que fossem derrotadas por partes; e seguir a política de avançar em ondas para estender o território sob o regime independente, e opor-se à política de avanço temerário.

Graças a estas táticas apropriadas, ao terreno da Região Fronteiriça favorável para nossa luta e a falta de plena coordenação entre as troas atacantes que viam de Junán e Chiangsi, conseguimos, nos quatro meses transcorridos de abril a julho, uma série de vitórias militares a ampliamos o território sob o regime independente popular. Ainda que várias vezes superior a nós em número, o inimigo não conseguiu destruir nosso regime independente, nem tampouco pode impedir seu desenvolvimento, enquanto que a influência de nosso regime independente sobre as províncias de Junán e Chiangsi tendia a crescer dia a dia. A derrota de agosto se deveu exclusivamente a que alguns camaradas, sem compreender que nesse momento as classes dominantes atravessavam por um período de estabilidade temporal, adotaram uma política apropriada para um período de ruptura dentro de  ditas classes e dividiram nossas forças para um avanço temerário ssobre o Sul de Junán, o qual as conduziu à derrota tanto na Região Fronteiriça como no Sul de Junán. Aproveitando de que nesse momento os camaradas Mao Tsetung, Wan Si-ien e outros, os que sustentavam energicamente uma opinião diferente, se encontravam longes, em Yungsin, o representante do Comitê Provincial de Junán, Tu siu-chiang, e e o secretário do Comitê Especia da Região Fronteiriça, Yang Kai-ming, designado pelo Comitê Provincial de Junán, sem ter em conta a situação do momento nem fazer caso da resolução da reunião conjunta do Comitê do Corpo do Exército, o Comitê Especial e o Comitê Distrital de Yungsin, que não estava de acordo com as opiniões do Comitê Provincial de Junán, puseram mecanicamente em execução a ordem deste último de dirigir-se até o Sul de Junán, com o que responderam aos sentimentos os homens de 29: Regimento do Exército Vermelho (composto por camponeses do distrito de Yichang), os que queriam eludir a luta e voltar a sua cidade natal. Isto conduziu a derrota tanto na Região Fronteiriça como no Sul de Junán.

Os fatos são os seguintes: Em meados de julho, o  8. f Corpo do Exército inimigo de Junán, sob as ordens de Wu Shang, invadiu Ningkang e penetrou logo em Yunsin; não conseguindo entablar combate conosco (nossas tropas trataram de atacá-lo por um atalho, mas não encontraram com ele) e temendo as massas, que nos apoiavam, retirou-se precipitadamente para Chaling através de Lienjua. Nesses momentos, as unidades principais do Exército Vermelho, qu e avançavam a partir de Ningkang sobre Lingsien e Chaling, mudaram de plano em Lingsien e viraram para o sul de Junán, enquanto as forças inimigas de Chiangsí, cinco regimenteos do 3 Corpo do Exército sob as ordens de Wang Chi, Chin Jan-ting e seis regimentos do 6 f Corpo do Exército sob as ordens de Ju Wen-tou, lançaram conjntamente um ataque contra Yungsin. Nesse então, tinhamos em Yungsin apenas um regimento, o qual, protegido pelas amplas massas populares e mediante ataques guerrillheiros de todas as direções, conseguiu imobilizar surante vinte e cinco dias a estes onze regimentos em um rádio de trinta li [4] com centro na capital do distrito de Yungsin. Finalmente, Yungsin caiu sob o furioso ataque do inimigo, e logo cairam Lienjua e Ningkang. Nesse momento, súbitas dissensões internas estalaram entre as tropas innimigas de Chiangsi, o 6. f Corpo do Exército a mando de Ju Wen-tou se retirou apresuradaamente e, pouco depois, entablo combate em Changshu com o 3. er Corpo do Exército de Wang Chin. Os outros cinco regimentos de Chiangsi se retiraram a toda para a capital do distrito de Yungsin. Se nossas unidades principais não houvessem marchado para o Sul de Junán, teria sido possivelmente perfeito desbaratar essas forças inimigas e estender o território sob o regime independente até incluir Chian, Anfu e Pingsiang, unindo-o com Pingchiiang e Liuyang. Mas, como nossas unidades principais estavam ausentes e o único regimento de dispunhamos estavam muito fatigado, decidiu-se que uma parte do regimento ficaram para defender as montanhas Chingkang junto com os destacamentos de Yuan Wen-tsai e de Wang Tsuo, e que o resto se dirigira sob meu mando para Kuitung para encontrar-se com nossas unidades principais e faze-las regressas. Por então, as unidades principais se retiravam do Sul de Junán, caminho  de Kuitung, e ali nos reunimos no dia 23 de agosto.

Em meados de julho, quando as unidades principais do Exército Vermelho acabavam de chegar a Longsien, os oficiais e soldados do 29. f Regimento, politicamente vacilantes, quiseram regressar para sua cidade natal no Sul de Junán e se negaram a obedecer ordens; por sua parte, o 28. f Regimento, contrário a marchar para o Sul de Junán mas desejoso de ir para o Sul de Chiangsi, tampouco quis voltar a Yungsin. Como Tu Siu-ching estimulou as ideias errôneas dos homens do 29. f Regimento e como o Comitê do Corpo do Exército não conseguiu dissuadi-los, essas unidades partiram no dia 17 de julho de Lingsien rumo a Chenchou. Ali travaram combate no dia 24 de julho com as forças inimigas sob o mando de Fan Shi-sheng; conseguiram êxito no começo, porém foram derrotadas mais tarde e se retiraram do combate. Continando, os homens do 29.f Regimento dirigiram-se por decisão própria para Yinchang, sua terra de origem. Resultou que uma parte deles foram aniquilados em Lechang pelos bandidos de Ju Feng-chang e o resto se dispersou pela zuna de Chenchou-Yichang sem que até o momento se saiba nada deles. Esse dia não se conseguiu reunir nem uma centena de homens. Por fortuna/sorte, o 28.f Regimento, que era uma de nossas forças principais, não havia sofrido grandes perdas, e no dia 18 de agosto ocupou Kuitung. No dia 23 de agosto, reuniram-se ali as unidades vindas das montanhas Chingkang; decidiu-se voltar às montanhas Chingkang passando por Chungyi e Shangyou. A sua chegada a Chungyi, o chefe de batalhão Yuan Chung-chan traiciono levando-se para uma companhia de infantaria e outra de artilharia. Ainda que conseguimos alcançar e fazer regressar a estas companhias, Wang Er-chuo foi morto, chefe do Regimento. Quando nossas tropas iam em caminho sem haver chegado ainda a seu destino, forças inimigas de Junán e Chiangsí aproveitaram a oportunidade e atacaram as montanhas Chingkang no dia 30 de agosto. Servindo-se das ventajas do terreno dificilmente acessível, nossa guarnição, apenas um batalhão, opos resistência, desbaratou o inimigou e salvou a base de apoio.

As causas da derrota de agosto foram: 1) os oficiais e soldados de uma de nossas unidades, nostálgicos e politicamente vacilantes, haviam perdido sua capacidade de combate; en tanto que os oficias e soldados de outra unidade não queriam marchar para o Sul de Junán nem tinham entusiasmo 2 ) As longas marchas em pleno verão fatigaram nossos homens. 3) Alejadas vários centenas de li de Lingsien em um avanço temerário, nossas tropas perderam contato com a Região Fronteiriça e ficaram isoladas. 4) Como as massas do Sul de Junán ainda não haviam se posto em pé, nossa ação resultou em uma simples aventura militar. 5) estavamos pouco informados da situação do inimigo. 6) Não se haviam feito bem os preparativos e os oficiais e soldados não compreendiam o sentido da operação.

A SITUAÇÃO ATUAL NA REGIÃO SOB O REGIME INDEPENDENTE

A partir de abril deste ano, a região vermelha foi ampliando-se de forma gradual. Depois da batalha de Lungyuankou (na fronteira entre Yungsin e Ningkang) livrada no dia 23 de junho, na que derrotamos pela quarta vez as forças inimigas de Chiangsi, a região Fronteiriça chegou a abarcar os três distritos inteiros de Ningkang, Yungsin e Lienjua, pequenos setores de Chian e Anfu, o setor norte de Suichuan e o setor sudeste de Lingsien, e entrou em um período de pleno florescimento. Na região vermelha, a maior parte da terra havia sido distribuída e o resto estava distribuindo-se. Em todos os territórios e cantões se estabeleceram órgãos de Poder. Em Ningkang, Lienjua e Suichuan, se instalaram governos distritais, e se formou o Governo da Região Fronteiriça. Em todo o campo, organizaram-se destacamentos insurrecionais de operários e camponeses, e nos níveis de território e distrito, destacamentos de guardas vermelhos. Em julho, as forças inimigas de Chinagsi lançaram ataques, e em agosto, as de Junán e Chiangsi atacaram conjuntamente as monatanhas Chingkang. Todas as capitais de distrito e os vales de todos os distritos da Região Fronteriça foram ocupados pelo  inimigo. As forças de preservação da ordem e as “milícias de casa por casa”, cúmplices do inimigo, faziam estragos, e o terror branco reinava nas cidades e no campo. Se derrubaram a maioria das organizações do Partido e órgãos do Poder. Os camponeses ricos e os arrivistas dentro do Partido se passaram me massa ao inimigo. Apenas depois do combate de 30 de agosto nas montanhas Chingkang, as forças inimigas de Junán começaram a retroceder até Lingsien, mas as de Chiangsi seguiram reteniendo todas as capitais de distrito e a maioria das aldeias. Contudo, o inimigo jamais conseguiu apoderar-se das zonas montanhosas, que incluem: os setores oeste e norte de Ningkang; os setores de Tienlung, Siaosichiang e Wannienshan, localizados no Norte, Oeste e Sul de Yungsin, respectivamente; o setor de Shangsi, em Lienjua; o setor de Chingkangshan, em Suichuan, e os setores de Chingshikang e Tayaun, em Lingsien. Em julho e agosto, um regimento do Exército Vermelho, em coordenação com os destacamentos de guardas vermelhos dos diversos distritos, livrou dezenas de combates, grandes e pequenos, perdendo apenas trinta fuzis, e finalmente se repelgó às montanhas.

Quando nossas unidades voltavam as montanhas Chingkang atravessando os distritos de Chungyi e Shangyou, a 7ª Divisão Independente inimiga do Sul de Chiangsi, sob as ordens de Li Shi-yi, nos perseguiu até Suichuan. Em 13 de setembro, derrotamos a Liu Shi-yi, capturamos várias centenas de fuzis e tomamos Suichuan. Em 26 de setembro, chegamos as montanhas Chingkang. O 1. f de outubro, em Ningkang livramos um combate com uma das brigadas de Siung Shi-jui, comandada por Chou Jun-yuan, a vencemos e recuperamos todo o distrito de Ningkang. Entretanto, 126 homens pertencentes as forças inimigas de Junán comandadas por Yen Chung-yu e estacionadas no distrito de Kuitung, se passaram a nosso lado e foram organizados em um batalhão de missão especial, com Pi Chan-yun como chefe. Em 9 de novembro, em Lungyuankou e a capital do distrito de Ningkang, derrotamos um regimento da brigada de Chou Jun-yuan. No dia seguinte tomamos Yunsin, mas pouco depois nos retiramos para Ningkang. Atualmente, nossa região forma uma estreita franja que se estende, de Sul a Norte, desde a vertente sul das montanhas Chingkang em Suichuan até o limite de Lienjua, abarcando todo o distrito de Ningkang e setores dos distritos de Suichuan, Lingsien e Yungsin. Mas o setor de Shangsi, em Lienjua, e os setores de Tienlung e Wannienshan, em Yungsin, não estão muito ligados a esta franja. O inimigo trata de destruir nossa base de apoio mediante ataques militares e bloqueio econômico; nos preparamos agora para desbaratar seus ataques.

O PROBLEMA MILITAR

Dado que a luta na Região Fronteiriça é exclusivamente militar, tanto o Partido como as massas têm que por-se em pé de guerra. Como fazer frente ao inimigo e como combater, chegou a ser o problema central de nossa vida cotidiana. Um regime independente pode ser criado e mantido somente mediante a força armada. O inimigo se apoderará imediatamente de qualquer território nosso onde não tenhamos forças armadas ou as tenhamos em número insuficiente, ou bem onde adotemos táticas errôneas frente a ele. Como a luta se intensifica a cada dia que passa, se planteiam diante de nós sumamente complexos e agudos.

O Exército Vermelho da Região Fronteiriça está integrado por: 1) as antigas unidades de Ye Ting e Je Lung, que vieram de Chaochou e Shantou [5]; 2) o antigo Regimento de Guardas do Governo Nacional de Wuchang [6]; 3)Camponeses de Pingchiang e Liuyang [7]; 4) Camponeses do Sul de Junán [8] e operários de Shuikoushan [9]; 5) soldados capturados para as tropas de S, Ke-siang, Tang Sheng-chi, Pai Chung-si, Chu Pei-te, Wu Shang e Siung Shi-jui, e 6) camponeses dos diversos distritos da Região Fronteiriça. Mas, das antigas unidades de Ye Ting e je Lung, do Regimento de Guardas e dos destacamentos camponeses de Pingchiang e Liuyang, apenas fica um terço depois de mais de um ano de combate. Os camponeses procedentes do Sul de Junán também sofreram  fortes baixas. Portanto ainda que as primerias quatro categorias seguem sendo até hoje a coluna vertebral do 4º Corpo do Exército do Exército Vermelho, as duas ultimas são muito superiores a elas em número. E das duas últimas categorias, os soldados capturados o inimigo constituem a maioria. Sem esta fonte de reemplazos, enfrentariamos um sério problema de recursos humanos.  Ainda assim, os efetivos não aumentam na mesma proporção que os fuzis. Os fuzis não se perdem facilmente, mas os homens sim, pois ficam feridos, morrem, ficam doentes ou desertam. O Comitê Provincial de Junán prometeu enviar aqui operários de Anyuan [10]; esperamos ansiosamente que o faça.

O Exército Vermelho está composto em parte de operários e camponeses, e em parte de lumpemproletariado. Evidente que, não é bom que haja um número grande de lumpemproletarios em suas fileiras. Mas são combativos, e como a luta prossegue dia a dia e sofremos grandes baixas, já não é fácil llenar os  claros nem sequer com eles. Nestas circunstâncias, a única solução é intensificar a educação política.

A maioria dos soldados do Exército Vermelho provém das tropas mercenárias, mas uma vez no Exército Vermelho, se transforma. Em primeiro termo, não se pratica no Exército Vermelho o sistema mercenário, e por isso os soldados sentem que não lutam para outros, senão para si mesmos e para o povo. Até agora não foi estabelecido no Exército Vermelho um sistema de pagamento regular; apenas se dá ração de arroz, uma asignacion para azeite, sal, lenha e hortaliças, e uma pequena soma para gastos menores. Entregou-se terra a todos os oficiais e soldados do Exército Vermelho nativos da Região Fronteiriça, mas fica bastante dificil dá-la aos que vêm de outras partes.

Graças a educação política, os soldados do Exército Vermellho adquiriram consciência de classe e um conhecimento básico no que atane a necessidade de distribuir a terra, estabelecer os órgãos de Poder, armar os operários e camponeses, etc. Sabem que estão lutando para si mesmos, para a classe operária e o campesinato. Portanto, suportam sem queixar-se as penalidaes da luta. Cada companhia, batalhão ou regimento já tem seu comitê de soldados, que representa os interesses destes e realiza o trabalho político e o de massas.

A experiencia demonstrou que o sistema de representantes do Partido [11] não deve ser abolido. O representante do Partido desempenha um papel de singular importância a nível de companhia, porque a esse nível se organiza a célula do Partido. Lhe corresponde impulsionar o trabalho de educação política do comitê de soldados, orientar o trabalho relativo ao movimento de massas e servir ao mesmo tempo de secretário da célula. Os fatos comprovaram que quanto melhor é o representante do Partido na companhia, mas sã é esta, e que o chefe da companhia dificilmente pode desempenhar um papel político tão importante. Posto que as baixas entre os quadros inferiores são sérias, aos poucos soldados há pouco capturados do inimigo são nomeados chefes de pelotão ou de companhia; há alguns que, capturados em fevereiro ou março, agora já são Chefes de batalhão. Cairá em grave erro aquele, que olhando as coisas superficialmente, pensa que nosso exército, por chamar-se Exército Vermelho, pode prescindir dos representantes do Partido. Quando o 28º Regimento estava no Sul de Junán, suprimiu esse sistema mas voltou a implantá-lo mais tarde. Mudar o nome de “representantes do Partido” pelo o de “instrutores” seria confundi-los com os instrutores do Kuomintang, os quais odeiam os soldados capturados. Além disso, a mudança de nome não afeta a essência do sistema. Portanto, temos decidido não fazer esta mudança. As baixas entre os representantes do Partido são muito sérias e iniciamos cursos de preparação para compensá-las; ademais, esperamos que o Comitê Central e os Comitês Provinciais de Junán e Chiangsi nos enviem pelo menos trinta camaradas aptos para desempenhas tal cargo.

Um soldado necessita, por regra geral, seis meses ou um ano de adestramento para poder combater, mas nossos soldados, recrutados apenas ontem, tem que entrar em combate hoje, virtualmente sem nenhum adestramento. Muito pobres em técnica militar, na luta não contam mais que com sua valentia. Como é impossível ter longos períodos de descanso e adestramento, a única saída é tratar de eludir, se tal coisa é impossível, certos combates e assim ganhar tempo para o adestramento. Com o objeto de preparar oficiais de rangos inferiores, temos atualmente um corpo de instrução de 150 homens, e pensamos faze-lo permanentemente. Esperamos que o Comitê Central e os dois Comitê Provinciais nos enviem o maior número possível de oficias, desde chefes de pelotão e de companhia para cima.

O Comitê Provincial de Junán nos indicou que nos preocupemos pelas condições de vida dos soldados e façamos pelo menos um pouco melhores que as dos operários e camponeses em geral. Na realidade são piores. Além da ração de arroz, se asignan apenas cinco fenes diários por pessoa para azeite, sal, lenha e hortaliças, e ainda isto resulta dificil de manter. Somente o abastecimento destes artigos nos custa mais de dez mil yuanes ao mês, e esta soma a obtemmos exclusivamente por meio das expropriações dos déspotas locais [12]. Agora temos algodão para alcochoar  roupa de inverno para os cinco mil homens de nosso exército, mas nos falta tela. Apesar do frio, todavia muitos de nossos homens não levam mais do que trajes leves. Menos mal que estamos feitos para as penúrias. Além disso, suportamos todos as mesmas privações. Desde o chefe do corpo de exército até o cozinheiro, vivemos todos com uma asignacion diária de cinco fenes para a alimentação, além da ração de arroz. Enquanto ao dinheiro para gastos menores, se se asignan vinte fenes, todos recebem vinte; caso se asignan quanrenta, todos recebem quarenta [13]. Portanto, os soldados não tem queixas contra ninguém.

Cada combate nos deixa um saldo de ferido. E a desnutrição, o frio e outras causas fizeram ficar doentes a muitos oficiais e soldados. Nossos hospitais, situados nas montanhas, aplicam a medicina chinesa e a ocidental, mas há escassez de médicos e medicamentos. Atualmente há mais de oitocentos hospitalizados. O Comitê Provincial de Junán prometeu nos enviar medicamentos, mas até agora não recebemos. Todavia esperamos que o Comitê Central e os dois Comitês Provinciais nos enviem alguns médicos que pratiquem a medicina ocidental, assim como iodo em tabletas.

Apesar das duras condições de vida e aos frequentes combates, o Exército Vermelho se mantem tão firme com antes; isto o explica, além do papel do Partido, a prática da democracia no Exército. Os oficias não golpeiam os soldados; oficias e soldados recebem trato igual; os soldados gozam de liberdade de reunião e de palavra; acabaram com as formalidades inúteis, e as finanças são manejadas aos olhos de todos. Os próprios soldados administram os assuntos relativos ao rancho; dos cinco fenes diários para azeite, sal, lenha e hortaliças conseguem com tudo economizar um pouco para gastos menores; este ahorro, que chama “ahorros da comida”, é de aproximadamente sessenta ou setenta wen diários por cabeça tudo isto complace muito aos soldados, sobretudo aos recém capturados do inimigo, que comparando nosso exército com o Kuomitang, veem dois mundos distintos. Ainda que percebem que as condições materiais de vida no Exército Vermelho são inferiores as do exército branco, se sentem moralmente liberados. O mesmo soldado que ontem não tinha valentia no exército inimigo, hoje se comporta com valor no Exército Vermelho; isto se deve a influencia da democracia. O Exército Vermelho é como um horno no qual se transmutam todos os soldados capturados enquanto chegam. Na China, a democracia é necessária não apenas para o povo, mas também para o exército. O sistema democrático em nosso exército é uma arma importante para destruir aquelas características próprias dos exércitos mercenários feudais [14].

O Partido no Exército está agora organizado em quatro níveis: a célula de companhia, o comitê de batahão, o comitê de regimento e o comitê de corpo de exército. Em cada companhia existe uma célula, e em cada esquadra, um grupo. “A célula do Partido se organiza a nível de companhia”; esta é uma razão importante porque o Exército Vermelho se mantém indestrutível em meio de uma luta tão árdua. Há dois anos, as organizações de nosso Partido no exército do Kuomintang não supieron ganhar aos soldados; inclusive nas unidades de Ye Ting [15] apenas havia uma célula do Partido por regimento, e a causa disso não puderam resistir provas sérias. No Exército Vermelho, entre os militantes do Partido e os que não são, existe hoje uma proporção aproximada de um a três, ou seja, em média um membro do Partido para cada quatro homens. Recentemente decidimos recrutar mais militantes do Partido nas unidades de combate, para chegar a uma proporção de um a um [16]. Na atualidade, nos fazem falta bons secretários nas células de companhias; pedimos ao Comitê Central que nos envie para este cargo  um certo número de camaradas dentre os ativistas que já não podem permanecer onde se encontram. Quase todos os quadros vindos do Sul de Junán estavam dedicados ao trabalho do Partido no Exército. Mas como alguns deles se dispersaram em agosto no Sul de Junán, já não temos gente disponível.

Nossas forças armadas locais estão compostas pelos destacamentos de guardas vermelhos e os destacamentos insurrecionais de operários e camponeses. Armados de picas e escopetas, estes últimos estão organizado a nível de cantão; cada cantão tem um destacamento cuja força numérica varia segundo a população. Sua tarefa é reprimir a contrarrevolução, defender os órgãos cantonais de Poder, quando vem o inimigo, ajudar o Exército Vermelho e a Guarda Vermelha no combate. Os destacamentos insurrecionais foram criados primeiro em Yungsin como força secreta, e sairam à luz depois que ocupamos todo o distrito. Esta organização se estendeu agora aos demais distritos da Região Fronteiriça sem mudar de nome. Os destacamentos de guardas vermelhos estão armados principalmente com fuzis de cinco tiros, mas tem também de nove tiros e de um. Dispoem de 140 fuzis em Ningkang, 220 em Yungsin, 43 em Lienjua, 50 em Chaling, 90 em Linsien, 130 em Suichuan e 10 em Wanan, o que faz um total de 683.

A maior parte dos fuzis foram proporcionados pelo Exército Vermelho, e o resto, capturados do inimigo pelos próprios guardas vermelhos. A maioria dos destacamentos de guardas vermelhos dos distritos estão aumentando dia a dia sua capacidade de combate em sua constante luta contra as forças de preservação da ordem e das “milícias de casa por casa” dos déspotas locais e shenshi malvados. Antes do Incidente de 21 de Maio [17], havia destacamentos camponeses de autodefesa em cada distrito. Tinham 300 fuzis em Yousien, 300 em Chaling, 60 em Lingsien, 50 em suichuan, 80 em Yungsin, 60 em Lienjua, 60 em Ningxang (os homens de Yuan Wentsai) e 60 nas montanhas Chingkang (os homens de Wang Tsuo), ou seja, um total de 970. Depois do incidente, além das armas dos homens de Yuan e Wang, que se conservaram intactas, apenas ficaram G fuzis em Suichuan e 1 em Lienjua: os déspotas locais e shenshi malvados se apoderaram de todos os demais. O que os destacamentos camponeses de autodefesa tinham sido incapazes de conservar seus fuzis é resultado da linha oportunista. Atualmente, os destacamentos de guardar vermelhos dos diversos distritos tem muito pouco fuzis todavia, menos que os déspotas locais e shenshi malvados.